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Alfabetização para além dos métodos

É hora de navegar pela evolução dos diversos métodos da alfabetização a partir de grandes especialistas da educação e refletir sobre como garantir o cumprimento do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

Texto: Thelma Tavares Dias

O COMPROMISSO NACIONAL CRIANÇA ALFABETIZADA, lançado recentemente pelo Ministério da Educação (MEC), estabelece como meta que todas as crianças do Brasil estejam alfabetizadas até o final do 2º ano do Ensino Fundamental e destaca, também, a recomposição das aprendizagens para alunos do 3º ao 5º ano, o que revela o destaque que a fase da alfabetização vem recebendo no cenário da educação nacional.
Em dados recentes do Indicador Criança Alfabetizada do MEC, foi apresentado que, em 2024, 59,2% das crianças matriculadas em instituições públicas estavam alfabetizadas ao final do 2º ano, o que revela a importância dada a essa fase da educação.
Ao tratar desse tema, torna-se necessário um pequeno resgate histórico para entender por que a alfabetização persiste como ponto de atenção.

Alfabetização com o Meta

Ao fazermos um resgate histórico do sistema educacional brasileiro, em 1932 temos o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, capitaneado por Anísio Teixeira, estabelecendo a universalização do ensino como um dos objetivos a ser atingidos. De acordo com o Manifesto, a educação brasileira deveria ser pública, laica, gratuita e obrigatória, como um direito de todos e responsabilidade do Estado.
Com o passar dos anos, o ensino, que até então era restrito e voltado aos filhos das elites, torna-se acessível para todos, transformando a universalização do ensino em uma meta nacional. Além das questões de acesso e a necessidade de escolarização para participação na sociedade, a indústria nacional, em expansão durante a ditadura militar nos anos 1960, necessitava de mão de obra minimamente qualificada, e, para isso, era necessária uma escolarização mínima para a classe trabalhadora que se formava.
A partir do momento em que começa a se estabelecer um sistema nacional de educação e sendo a alfabetização o ponto de entrada para a escola, é preciso definir um método de alfabetização, o que já se tornou um campo de disputas desde o princípio, conforme exposto por Magda Soares em seu trabalho Alfabetização: a questão dos métodos.

A Questão dos Métodos

Para a autora, historicamente, o método de alfabetização tornou-se uma questão no Brasil por conta de uma alternância constante entre eles: surge um método considerado “inovador”, que substitui o método utilizado, que acaba recebendo a pecha de ser “tradicional”, contudo, o novo método também se torna “tradicional” com o passar do tempo, e, novamente, é substituído por um novo método que, dessa vez, será, de fato, “inovador”, seguindo nesse ciclo indefinidamente.
Com isso, os baixos resultados dos indicadores das taxas de alfabetização são considerados um problema do método utilizado, e, para resolvê-lo, basta a alteração do método.
Contudo, cabe refletir: o “problema” da alfabetização é, realmente, uma questão de método? Para tentar responder a essa questão, vejamos o que foi exposto por Magda Soares a respeito dos métodos utilizados no Brasil.
Inicialmente, considerava-se que, para aprender a ler e a escrever, era necessário aprender as letras do alfabeto, ou seja, os nomes das letras, para que se chegasse às sílabas e, posteriormente, às palavras, por meio da junção das letras. Tais métodos, que posteriormente deram origem aos métodos fônicos e silábicos, eram chamados de soletração, todos eles fazendo parte dos métodos considerados sintéticos, utilizados nas cartilhas, que eram o material didático da época.
Nos métodos sintéticos, há forte destaque para o som (o que, posteriormente, ficou conhecido como consciência fonológica). Para que a criança entenda que a escrita representa os sons da fala, parte-se do princípio de que a criança entenda essa relação entre som e letra, destacando-se, assim, o método fônico. Com isso, a partir do entendimento das letras, é possível aprender sílabas e formar palavras.
Em oposição aos métodos sintéticos, temos os métodos analíticos, que surgiram com o propósito de fazer o caminho contrário, chegar ao conhecimento das letras e ao seu valor sonoro a partir de partes dotadas de sentido, como as palavras, e, por meio delas, tomar conhecimento das sílabas e, posteriormente, das letras e dos sons que as representam, método que ficou conhecido como palavração.
Em suma, métodos sintéticos partem da parte para o todo, seja da representação das letras do alfabeto, seja focando os sons que representam, já os métodos analíticos, como o próprio nome indica, buscam partir da análise de elementos dotados de sentido, sejam palavras, sejam textos maiores, para, então, se chegar às partes menores: as sílabas e as letras.
Embora tais métodos apresentem-se como distintos, é possível notar um princípio comum entre eles: todos entendem a alfabetização como a aquisição do sistema alfabético da escrita e que isso acontece por meio do entendimento de que a escrita representa os sons da fala e que isso acontece por meio da associação som/letra. Em vista disso, pode-se ensinar a ler e a escrever a partir de um método.
Uma grande mudança de paradigma em relação à alfabetização acontece nos anos 1980, quando Emília Ferreiro e Ana Teberosky, sob influência do Construtivismo de Jean Piaget, estabelecem em sua Psicogênese da Língua Escrita que a aprendizagem de leitura e escrita é desenvolvida pela criança por meio de fases em que esta vai construindo o entendimento da escrita como forma de representação.
Com isso, o foco muda do ensino para a aprendizagem. Antes, destacava-se o professor, que ensinava a leitura e a escrita por meio de um método, agora, o destaque vai para o aluno e sua aprendizagem, que deve se desenvolver por meio de atividades que incentivem a construção do entendimento da relação entre fala e escrita, e não apenas a associação mecanizada de sons e letras.
Em meados dos anos 1980, também entra nas discussões do meio educacional o conceito de letramento, que pode ser entendido como uma ampliação do conceito de alfabetização. Se a alfabetização corresponde a um aspecto mais mecânico de aprendizagem do sistema alfabético de escrita, o letramento diz respeito aos usos sociais da língua escrita, das práticas sociais em que a escrita está inserida.
Considerando que vivemos em uma sociedade grafocêntrica, que privilegia a escrita como meio de comunicação e instrumento de registro, além de saber grafar palavras, é preciso saber mobilizar a escrita em função das situações em que ela é necessária para atender às demandas da vida em sociedade. Ou seja, não basta ser alfabetizado, é preciso ser letrado.
Com o estabelecimento do conceito de letramento, mais um aspecto é adicionado à polêmica da alfabetização, já que, para alguns, métodos de alfabetização tornaram-se vilões por promover um ensino mecânico e dissociado das práticas sociais, o que impossibilitava o alfabetizar letrando .

Caminhos Possíveis

Partindo do exposto até aqui, vemos que a etapa da alfabetização se constitui como um campo de disputas, com adeptos de ambos os lados. Por um lado, há professores que preferem alfabetizar por meio de métodos mais estruturados e considerados “tradicionais”; do outro, professores que privilegiam atividades alfabetizadoras mais contextualizadas, de acordo com as práticas sociais de leitura e escrita. “Porém, em vez de escolher um método e se agarrar a ele como único, o importante é que o professor tenha consciência de que não existe um método perfeito que vai funcionar para todos os alunos. O que há, sim, é uma diversidade de formas de ensinar e de aprender, e cabe ao professor conhecer a ‘cartela’ de opções e selecionar ou combinar estratégias com intencionalidade pedagógica alfabetizadora, de acordo com a realidade e a necessidade de seus alunos”, diz Millyane Moreira, pedagoga e editora-executiva da área de Linguagens da editora Moderna.
Considerando-se, porém, o sentido de método no dicionário, definido como o “emprego de procedimentos ou meios para a realização de algo, seguindo um planejamento; rumo”, vemos que não é possível alfabetizar sem método, ainda que a expressão “método de alfabetização” tenha se tornado pejorativa para muitos.
Há que se considerar que a alfabetização depende de muitos fatores e que acontece numa sala de aula com crianças vindas de ambientes diferentes, em uma sala de aula de uma escola inserida em um bairro de determinado contexto social, com professores que possuem formação inicial e continuada diversas, com concepções pedagógicas e preferências particulares, fatores que influenciam o processo de ensino-aprendizagem.
Embora na Educação Infantil não se tenha o compromisso de consolidar plenamente a aquisição da leitura e da escrita, em muitos contextos, nela acontecem atividades que já possibilitam à criança algumas vivências no mundo letrado, como é o caso das contações de histórias, por exemplo. Em sua obra Palavras às Professoras que Ensinam a Ler e Escrever, Ana Teberosky indica a leitura em voz alta como atividade a ser realizada como meio de introduzir as crianças ao universo da leitura e da escrita. Na sequência da leitura da história, acontece a visualização do texto lido, para que a criança veja o escrito e comece a entender a relação entre letras e sons.
Embora tal atividade não faça parte de um método de alfabetização, ela não poderia ser utilizada como ponto de partida para a escolha de uma palavra a ser utilizada com o método de palavração? Ou, ainda, para a apresentação da correspondência entre letra e som, característica do método fônico?
Vejamos, também, a situação contrária: para uma criança que começa o Ensino Fundamental após participar de diversas atividades de letramento na Educação Infantil, ou cuja família já propiciou contato com leituras e diversas vivências no mundo letrado, faria sentido a apresentação de todas as letras do alfabeto e suas correspondências sonoras?
Com as situações aqui mencionadas, espera-se demonstrar que, ainda que a temática método de alfabetização tenha se constituído como polêmica no meio educacional, é preciso avançar no debate, para que os objetivos finais sejam atingidos e que a inserção na sociedade letrada aconteça de fato.
Espera-se, ainda, demonstrar que a etapa de alfabetização é complexa e pode contar com diversos meios e atividades em sua realização, sem a necessidade de comprometimento cego com lados de uma disputa, mas com a utilização dos instrumentos necessários, de acordo com as crianças e o contexto em que se está inserido.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, para que a criança seja considerada alfabetizada, é preciso que ela atinja 743 pontos da escala do Saeb para alunos do 2º ano, que equivale a:

  • Ler palavras, frases e textos curtos;
  • Localizar informações explícitas em textos curtos (até seis linhas), como em bilhete, crônica e fragmento de conto infantil;
  • Inferir informações em textos que articulam linguagem verbal e não verbal, como em tirinhas e cartazes;
  • Escrever ortograficamente palavras com regularidades diretas entre fonemas e letras;
  • Escrever textos que circulam na vida cotidiana, ainda que com desvios ortográficos ou de segmentação.

Com tais objetivos, vemos que não basta que a criança faça a correspondência entre língua falada e escrita, ou que conheça letras e sons, mas que seja capaz de ler e entender o que lê, assim como que seja capaz de escrever textos de circulação social, ou seja, para que seja considerada alfabetizada, é preciso, também, estar letrada, que saiba mobilizar a leitura e a escrita em situações cotidianas.
Contudo, para utilizar a leitura e a escrita em situações de sua vida, é preciso que ela aprenda o sistema alfabético da escrita. Com isso, vemos que alfabetização e letramento andam em conjunto, ambos sendo componentes do processo global que é a alfabetização.
Para garantir o direito a uma participação cidadã na sociedade, é preciso atender à diversidade de alunos e contextos dentro de uma mesma sala de aula, lançando mão de diferentes estratégias e métodos de maneira a beneficiar a todos ali presentes. A utilização de diferentes propostas não descredibiliza a didática do professor; pelo contrário, promove a inclusão e a equidade por meio do direito à educação de qualidade.


Para Saber Mais

  • SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2020. 128 p.
  • BRASIL. Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. Disponível em: https://mod.lk/ed28_pp1. Acesso em: 2 fev. 2026.
  • BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. Portal Gov.br. Indicador nacional de alfabetização avança e atinge 59,2% em 2024. Disponível em: https://mod.lk/ed28_pp2. Acesso em: 2 fev. 2026.
  • DICIONÁRIO MICHAELIS. Método. [S.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_pp3. Acesso em: 2 fev. 2026.
  • TEBEROSKY, Ana. Palavras às professoras que ensinam a ler e a escrever. Disponível em: https://mod.lk/ed28_pp4. Acesso em: 2 fev. 2026.
  • BRASIL. Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. 1932. 19 p. Disponível em: https://mod.lk/ed28_pp5. Acesso em: 2 fev. 2026.
  • SOARES, Magda. Letramento. In: Glossário Ceale: termos de alfabetização, leitura e escrita para alfabetizadores. Belo Horizonte: UFMG/Ceale, 2016. Disponível em: https://mod.lk/ed28_pp6. Acesso em: 2 fev. 2026.
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