A escola na era digital
Foi um longo caminho até que a Educação Digital e Midiática passasse a ser tema de escola. Agora, é obrigatória. E mais necessária do que nunca.
Texto: Ricardo Prado

POR DETERMINAÇÃO do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de 2026 todas as escolas brasileiras, públicas ou privadas, precisarão oferecer um componente curricular sobre Educação Digital e Midiática. De acordo com as Diretrizes Operacionais Nacionais do CNE, documento publicado em março de 2025 e que também serviu para dar base legal à proibição do uso dos celulares pelos estudantes nas escolas, o objetivo dessa inserção, que tanto pode ser implementada de forma transversal entre os componentes curriculares quanto como disciplina específica, é promover um “uso mais intencional e ético das tecnologias”.
Algumas redes de ensino, como a estadual da Bahia, optaram pela inclusão de uma disciplina específica. No caso baiano, aproveitaram uma experiência bastante exitosa em curso desde 2023, as agências de notícias nas escolas, como um dos vetores para que estudantes e professores ganhem “maturidade digital” no manejo de ferramentas digitais de comunicação e na reflexão crítica sobre o alcance e os limites éticos que precisam ser observados na grande arena digital. Já na cidade do Rio de Janeiro a rede optou pela abordagem interdisciplinar; neste caso, também se aproveitou de uma bem-sucedida experiência pedagógica, a do Ginásio Educacional Tecnológico (GET), como ponta de lança de um trabalho mais aprofundado e denso com os recursos digitais à serviço da educação. Esta reportagem vai mostrar como essas duas redes estão fazendo para se tornarem cada vez mais digitais e quais os desafios que gestores e professores têm pela frente ao lidarem com um tema tão pulsante e atual.
BNCC DA COMPUTAÇÃO: Três eixos organizadores
Em 2022, foi publicada a BNCC da Computação, que definiu três eixos organizadores: Pensamento Computacional; Mundo Digital; e Cultura Digital. Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática vinculado ao Instituto Palavra Aberta, que trabalha com formação de professores nessa área, esclarece essas três vertentes: “O pensamento computacional diz respeito a trabalhar com a lógica computacional: abstração, reconhecimento de padrões, decomposição, algoritmos etc. São conceitos que vão construir a capacidade de entender o pensamento computacional para, mais adiante, poder trabalhar com programação, por exemplo”. “Já o eixo Mundo Digital”, explica, “tem a ver com o mundo das máquinas e como ele funciona. Questões como o que são dados, bancos de dados, linguagens de computador; o que é representação, codificação, hardware, software; como é a distribuição em rede; e como funciona o mundo digital e o mundo dos computadores entram nesse eixo, que, em geral, tende a cair dentro de uma disciplina de computação porque ele precisa de um professor especializado. Algumas coisas podem ficar a cargo de um professor de Matemática, como lógica, dados etc.” Por fim, o eixo da Cultura Digital tem a ver com letramento digital: “É sobre como é que a gente se relaciona por meio dos ambientes digitais, as questões do acesso e a qualidade da informação, a avaliação da informação, os impactos da tecnologia na sociedade, a segurança, a privacidade etc.”, explica.

Usar, entender e refletir
Fazendo um retrospecto da Educação Midiática desde seu surgimento, a pesquisadora vê um quadro em constante evolução. “A Educação Midiática surge nos anos 1970 muito preocupada com um possível impacto negativo da mídia de massa, como a televisão e o cinema, sobre crianças e jovens ao trazer temas como violência, drogas etc., sempre oscilando entre a proteção e o empoderamento. À medida que os computadores pessoais aparecem e a sociedade vai ficando mais digitalizada, você começa a ter uma fluência não apenas técnica, mas também crítica, de acessar e avaliar a informação”, observa. O passo seguinte foi a entrada em cena das mídias sociais, como o Instagram, o WhatsApp e o TikTok. “Quando as mídias sociais passam a fazer parte da sociedade, você também precisa ter um olhar cultural para esse fenômeno, para avaliar quem tem voz, quem não tem voz, quem está representado, quem está sub-representado, e surgem, então, questões de equidade e justiça. E, quando o jornalismo passa a ser digitalizado, com as pessoas se informando nos ambientes digitais e a convergência entre produtores e consumidores de informação, surgem as fake news, as teorias de conspirações etc., e você começa a ter a necessidade do letramento da notícia. Assim, a definição do que é ser letrado numa sociedade digital vai reagindo aos desafios postos a cada evolução tecnológica”, expõe Mariana, destacando que o Brasil possui, atualmente, uma legislação bastante consistente e coerente com as abordagens sobre Educação Midiática mais contemporâneas (veja box com indicações de cursos e leituras sobre cultura digital e midiática).
Para a especialista, os desafios da Educação Midiática ficam mais complexos à medida que o uso da tecnologia se torna mais e mais presente no cotidiano das pessoas. “O que vai acontecendo ao longo do tempo é que a computação é cada vez mais pervasiva em todas as esferas da nossa vida. Cada vez mais presente e, ao mesmo tempo, cada vez mais invisibilizada, mais naturalizada. Então, começa a ter um trabalho muito importante de desvendar as camadas mais invisíveis desse funcionamento.” Esta, portanto, é uma tarefa que a escola precisa assumir: desnaturalizar o funcionamento das tecnologias, revelando seu funcionamento e sua lógica, para que aquilo que está invisibilizado possa se tornar visível. Um movimento feito com consciência e intenção pedagógica, organicamente integrado às diferentes disciplinas, e que poderia ser resumido em aprender a usar (de maneira criativa), entender (de forma ampla) e refletir (criticamente) sobre as tecnologias digitais e seus diversos usos.
AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS: Cultura Digital na Veia
Na rede estadual da Bahia, Educação Digital e Midiática virou disciplina, explica Carla Aragão, diretora de Inovação e Tecnologia do Instituto Anísio Teixeira (IAT), órgão vinculado à Secretaria da Educação que desenvolve materiais didáticos e cursos de formação docente para os professores da rede. E a procura por cursos de formação na área digital, por parte dos professores, tem sido intensa: “Abrimos uma formação em Inteligência Artificial para educadores, e em três dias tivemos mais de 600 inscritos para 500 vagas. Abrimos, também, um curso de Introdução à Educação Midiática, e tivemos 250 pessoas inscritas em três dias”, ressalta Carla, acrescentando que outro recurso especialmente voltado aos professores que ministrarão a disciplina de Educação Digital e Midiática na rede é o Maria Felipa Lab. Localizado em Salvador, seu principal espaço é o Laboratório de Criatividade e Inovação para a Educação Básica (LabCrie), dedicado à formação de professores em aprendizagem ativa e cultura maker. Além disso, o laboratório conta com uma sala de eletrônica/IoT (internet das coisas) e outra dedicada à fabricação manual, que inclui equipamentos de marcenaria e carpintaria. “Esse é um espaço em que a gente trabalha com aprendizagem criativa, cultura maker, robótica, inteligência artificial. Nesse laboratório temos uma série de equipamentos, como impressora 3-D, cortadora laser etc.”, acrescentando que cerca de 80% das escolas da rede estadual possuem boa estrutura de equipamentos e conexão à internet.
Mas a “menina dos olhos” de Carla Aragão nessa frente de letramento digital dos estudantes são as agências de notícias que vêm se espalhando pelas escolas de Ensino Médio da rede e que permitem aos seus participantes mergulharem na cultura digital, trabalhando localmente as notícias de suas comunidades por meio de diversos recursos, como vídeos, podcasts, fanzines e jornais. “As agências de notícias são uma metodologia indutora do letramento midiático; a escola pode escolher outros caminhos, mas muitas têm escolhido esse”, explica Carla, destacando que hoje existem 272 agências operando nas escolas baianas, sempre com dois professores responsáveis. A maioria possui canais muito ativos no Instagram ou no YouTube, e várias dessas agências funcionam como câmaras de eco de questões de suas comunidades – especialmente aquelas localizadas em escolas quilombolas e indígenas. “A gente tem uma agência de notícias em uma escola indígena que já ganhou dois prêmios em anos consecutivos, 2024 e 2025, no Festival Nacional de Documentários do Rio de Janeiro”, comenta Carla, orgulhosa, salientando que, em muitos casos, um dos professores ligados à agência de notícias também assume a disciplina de Educação Digital e Midiática; mas isso não é uma regra, já que a adesão à disciplina ou à agência de notícias da escola é voluntária.
GINÁSIOS EDUCACIONAIS TECNOLÓGICOS: A Experiência Carioca
Se na Bahia a escolha da rede foi incluir uma nova disciplina na grade curricular, na cidade do Rio de Janeiro a opção foi pela abordagem interdisciplinar, mas incluindo, também, uma disciplina específica, conforme explica Ana Massonetto, assessora especial da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro: “Aqui nós temos as duas frentes. De um lado, o currículo carioca tem um componente específico, que é de Tecnologias para Aprendizagem, um professor que trabalha especificamente com esse componente de tecnologias para a aprendizagem. Mas, para além disso, a gente tem uma série de iniciativas que buscam fazer a integração de forma transversal, para que a tecnologia e a Educação Midiática não fiquem restritas a um único componente”, explica.
Ana esclarece que a política de Educação Midiática já existe desde 2023 na cidade do Rio de Janeiro. “Por meio da MultiRio e da Escola de Formação Paulo Freire, oferecemos regularmente cursos específicos sobre letramento midiático, cultura digital e também sobre o uso pedagógico de ferramentas específicas. Essas formações acontecem tanto de forma remota quanto presencial, e a gente incentiva muito que o professor que é referência na escola seja um multiplicador desse conhecimento para os demais colegas da unidade”, explana.
Se na rede baiana o projeto das agências de notícias assumiu o protagonismo da Educação Digital e Midiática, gerando ambientes de experimentação, pertencimento e exercício do pensamento crítico e criativo entre os estudantes, no Rio de Janeiro, esse papel de problematizar os usos e os costumes da vida digital a partir de experiências mão na massa encontrou um celeiro de oportunidades na experiência dos Ginásios Educacionais Tecnológicos, conhecidos pela sigla GET.
O GET é um modelo de escola no qual a cultura maker e o pensamento computacional estão presentes em todas as atividades. “O aluno não vai para o GET apenas para ter uma aula de informática; ele usa o espaço do GET, que tem impressora 3-D, cortadora a laser, kits de robótica, para desenvolver projetos de Matemática, de História, de Geografia, tudo de maneira integrada”, explica Ana. Atualmente, são 275 GETs na cidade, e a meta é atingir 500 escolas até 2028, com vistas à universalização da rede nesse modelo de escola, que só é viável em regime de tempo integral. Um caminho ainda longo, já que a rede municipal tem hoje 1.557 escolas.
Ana explica que os GETs têm como proposta a aprendizagem ativa: “O aluno aprende a partir da resolução de problemas da vida real. Dessa forma, ele passa a ver significado e sentido no aprender e aprende fazendo. Essa é a premissa de ‘cultura maker’ que a gente tem no GET. E a outra premissa é que a gente aprende de maneira interdisciplinar. Na vida, a História e a Geografia não estão separadas: você aprende a história em um território. A Matemática e a Língua Portuguesa também não estão separadas, porque você aprende a resolver um problema interpretando o enunciado. É tudo conectado, e a aprendizagem também precisa ser conectada”.
Contando com parcerias como a Casa Firjan e o TLTL (Transformative Learning Technologies Lab) da Universidade de Columbia (EUA) para assessorar o trabalho de formação docente em serviço, a estrutura inovadora do GET criou dois perfis de professores que passaram a ter um papel de destaque na implementação da Educação Digital e Midiática na rede: o PIC (Professor Integrador de Colaboratório) e o PA (Professor Auxiliar). Os primeiros são encarregados de fazer a ponte entre os professores das turmas (o de referência, no caso dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, e os de disciplina, nos Anos Finais do Fundamental) e as atividades desenvolvidas nos laboratórios. São eles que criarão as sequências didáticas a partir das demandas específicas apontadas por seus colegas. Já o perfil do PA é mais técnico: ele é o professor que permanece no laboratório, recebendo as turmas juntamente com o PIC, e discutindo com este quais as melhores estratégias, os programas e as ferramentas mais apropriados para aquele projeto ou trabalho em questão. E estão bem preparados para isso: todo PA passa por uma formação de oito horas semanais, ao longo do ano inteiro, aprendendo não apenas sobre o manejo de equipamentos e softwares, mas também seus usos na escola e no mundo do trabalho.
UM MUNDO PARA APRENDER
Existem diversos recursos para aqueles professores que queiram se aprofundar na cultura digital e na Educação Midiática. Veja aqui alguns deles:

- EDUCAÇÃO DIGITAL E MIDIÁTICA: como elaborar e implementar o currículo nas escolas: um guia publicado pelo MEC em 2025 que traz um resumo de todas as legislações sobre educação digital e midiática e orienta professores e redes na implementação. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt1.
- AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZAGEM DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (AVAMEC): uma plataforma robusta, com uma grande quantidade de cursos gratuitos para professores, com cursos de 7 a 180 horas, com temas que vão de lógica de programação e autoria ao pensamento computacional, além de temas específicos de cada disciplina. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt2.
- GUIA PARA O PLANEJAMENTO DA ADOÇÃO DE DISPOSITIVOS TECNOLÓGICOS NAS ESCOLAS: desenvolvido por um grupo interdisciplinar, o guia oferece orientações de ferramentas adequadas para cada nível de ensino. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt3.
- FORMAÇÃO DOCENTE EM EDUCAÇÃO MIDIÁTICA: desafios, conquistas e oportunidades. Esse livro, publicado pelo Instituto Palavra Aberta, traz um time de especialistas discutindo diversos aspectos da formação docente sobre o tema. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt4.
- JORNADA DE RECURSOS EDUCACIONAIS DIGITAIS. Essa publicação do Cieb (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) elenca e analisa as indicações e os melhores usos de diversos recursos digitais educacionais para cada etapa da Educação Básica. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt5.
Educação midiática em cada fase escolar
E quando é a hora certa de começar a falar sobre Educação Digital e Midiática? Para Mariana Ochs, a Educação Midiática deve começar quando as crianças estiverem expostas às mídias. Ou seja, ainda na Educação Infantil, mas sem qualquer necessidade de usar tela ou equipamento. “A Educação Digital e Midiática pode ser desplugada, e, na Educação Infantil, ela deve ser desplugada, porque a gente não vai introduzir telas até o momento em que as crianças estejam no estágio do seu desenvolvimento adequado.”
Sobre os primeiros contatos das crianças com as telas, Mariana recomenda que essa aproximação deve ser sempre mediada. “De preferência, nenhuma tela para as crianças muito pequenininhas. Depois, a gente vai dar preferência às telas grandes, ou seja, televisão é melhor do que tablet, tablet é melhor do que celular, e sempre junto, para ir conversando, construindo algum entendimento.” Ela explica que a televisão é melhor para crianças pequenas porque não está sujeita à personalização algorítmica: “O celular tem uma engenharia de design que é feita para maximizar o engajamento. O YouTube, por exemplo, tem o mecanismo do autoplay, um vídeo automaticamente entra depois do outro. Nessa fase, é muito importante a gente conversar com os pais, prepará-los para que sejam mediadores de uma entrada segura e saudável nos ambientes digitais, evitar o abandono digital, que é quando os pais deixam as crianças na frente das telas sem mediação”.
Para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, lá pelo 4º ou 5º ano, elucida Mariana, quando as crianças começam a ter celulares e a participar de grupos de WhatsApp, as questões de relacionamento emergem. Depois, nos Anos Finais do Ensino Fundamental, começa uma exploração crítica desses ambientes e o que pode ser problemático. “Questões de relacionamento, de segurança, de privacidade, de responsabilidade surgem nesses Anos Finais. E a gente começa a deixar que eles explorem as inteligências artificiais, de forma mediada, discutindo seu funcionamento, seus problemas etc.” Já no Ensino Médio, enfatiza a especialista, é importante direcionar esse conhecimento para projetos de intervenção, para fomentar uma atitude crítica e cidadã, com vistas ao uso consciente, ético e criativo das ferramentas digitais. A ideia é que, nessa altura do percurso escolar, todo estudante esteja minimamente preparado para assumir sua cidadania que, para o bem e para o mal, agora também é digital.
Para Saber Mais
- BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação (CNE). Brasília: MEC/CNE, Ano. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt8. Acesso em: 10 fev. 2025.
- EDUCAMÍDIA. EducaMídia. São Paulo: EducaMídia, [s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt6. Acesso em: 10 fev. 2026.
- ESCOLA DE FORMAÇÃO PAULO FREIRE. Escola de Formação Paulo Freire. Rio de Janeiro, RJ: Escola de Formação Paulo Freire, [s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt7. Acesso em: 10 fev. 2026.
- Festival Nacional de Documentários do Rio de Janeiro – SINE D’OQUE. Festival Nacional de Documentários – Sine D’Oque. Rio de Janeiro: Sine D’Oque, [s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_nt9. Acesso em: 10 fev. 2026.
