Mentalidades matemáticas: a abordagem que quebra barreiras
Jo Boaler, educadora e pesquisadora de Stanford, explica como todos podem aprender matemática em alto nível, desafiando mitos e preconceitos da disciplina.

Texto: Marta Avancini
A PROFESSORA E PESQUISADORA Jo Boaler, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, é considerada uma das maiores autoridades mundiais no ensino de matemática. Mas, como muito estudantes, ela não se interessou pela disciplina durante boa parte de sua vida escolar: foi somente aos 17 anos, graças a uma professora, que Jo começou a perceber que aprender matemática poderia ser prazeroso.
Esse foi o ponto de partida de uma longa e rica trajetória acadêmica e profissional que inspira docentes de várias partes s do mundo a renovar seus métodos de ensino, tornando a matemática mais acessível a crianças e a jovens, graças à abordagem Mentalidades Matemáticas, que pressupõe que toda pessoa é capaz de aprender a disciplina, num processo que envolve a mudança da visão culturalmente construída de que somente algumas pessoas são capazes de aprender matemática.
Formada em Educação Matemática, Jo é graduada em Psicologia. É cofundadora e diretora acadêmica do YouCubed, um centro de pesquisa na Universidade de Stanford que oferece recursos gratuitos para professores, alunos e pais, a fim de promover uma educação matemática mais aberta e criativa.
No Brasil, a abordagem Mentalidades Matemáticas está sendo aplicada desde 2019 pelo Instituto Sidarta. Leia, a seguir, a entrevista de Jo Boaler concedeu à revista Educatrix .
Educatrix: Como você se envolveu com matemática e que tipo de aluna você era?
Jo Boaler: Quando eu estava crescendo na Inglaterra, a matemática era muito ensinada – e continua sendo ensinada – de um modo tradicional. O professor ficava lá e nos ensinava os métodos, e nós apenas os repetíamos. Eu era boa aluna, mas não me interessava por matemática. Eu planejava seguir carreira na área de Ciências, mas fiz o nível A de matemática, que é um dos níveis avançados – na Inglaterra, aos 17 e aos 18 anos, os alunos escolhem três ou quatro disciplinas.
Foi nessa época que a matemática mudou para mim, porque eu tinha uma professora que ensinava a mesma matemática, mas ela nos colocava para trabalhar em grupos. Eu trabalhava com meus colegas e depois compartilhávamos nossas ideias com a professora. E, de repente, eu não tinha mais medo de compartilhar minhas ideias, porque elas vinham do nosso grupo. Era interessante discutir como abordaríamos as coisas.
Decidi me tornar psicóloga educacional, e, para ser psicóloga educacional, é preciso lecionar por dois anos. Então, optei por lecionar Matemática.
Educatrix: E como foi a sua relação com a matemática nesse novo contexto?
Jo Boaler: Quando eu estava na Universidade de Londres e comecei a lecionar matemática, fiquei intrigada pelo fato de que ela é ensinada de uma maneira tão ruim, que a maioria das pessoas não consegue acessá-la.
Foi quando eu estava me formando para ser professora, aos 21 anos, que a matemática realmente ganhou vida para mim, pois os professores ensinavam essa matéria mais multidimensional.
Eu também estava em uma escola em Londres como professora estagiária e vi isso em ação lá. Vi esses alunos de origens muito difíceis, muito diversos culturalmente e socialmente, tendo prazer com a matemática, discutindo ideias entre eles, com nuances diferentes e construindo coisas. Foi então que percebi: “Nossa, a matemática é tão traumática para tantas pessoas, mas pode ser completamente diferente”.
Acabei fazendo um mestrado para refletir mais sobre essas questões; depois, um doutorado, e então vim para [a Universidade de] Stanford.
Educatrix: Você acredita que os professores têm um papel importante e podem mudar a percepção dos alunos em relação à matemática?
Jo Boaler: Sim, com certeza. Minha carreira é focada em ajudar professores a buscar os melhores métodos, as melhores abordagens. Um professor pode mudar tudo para os alunos.
Eu tive essa experiência quando tinha 17 anos. Se um professor trata os alunos como sujeitos pensantes, isso os modifica. E, mesmo que eles tenham outros professores que apenas ensinem a matemática como regra, eles ainda já mudaram. Realmente acredito que professores individualmente podem fazer muito pelos alunos.
Educatrix: A maneira como se ensina a matemática, além de modificar a percepção em relação à disciplina, também pode impactar a aprendizagem?
Jo Boaler: Com certeza. Tinha tanta coisa acontecendo na vida dos meus alunos quando fui professora em Londres, que eles tinham todos os motivos para não se conectarem com a matéria. Mas quando perceberam que ela poderia ser uma matéria empolgante, que podiam trabalhar com seus amigos, resolver quebra-cabeças e fazer jogos de matemática, eles realmente se interessaram.
Então, acho que a matemática desempenha um papel importante na vida dos alunos. É a matéria que destrói a autoconfiança deles. No entanto, também pode desempenhar um papel muito diferente, em que realmente estimule os jovens, e é isso que me motiva a tentar mudar a matemática para as crianças.
Educatrix: Então, o problema é a forma como a matemática é ensinada ou tem a ver com formação dos professores?
Jo Boaler: São as duas coisas. Uma grande parte está no ensino. Vemos professores diferentes ensinando o mesmo conteúdo. Um ensina matemática como uma lista de regras e procedimentos, e o outro ensina como ideias que as crianças discutem.
Portanto, você pode mudar muito pela maneira como ensina, mas acho que se torna difícil para os professores quando o conteúdo no currículo é tão denso e tradicional. No Ensino Médio, ainda ensinamos aos alunos cálculos complexos, que eles fazem à mão e que nunca usarão na vida. E ainda estamos ensinando o conteúdo que foi definido no século 19.
Educatrix: O que você quer dizer com a ideia de que ainda aprendemos matemática a partir de uma visão do século 19?
Jo Boaler: Se você comparar o mundo daquela época com o de hoje, que tipo de habilidades são necessárias? Naquela época, os jovens eram preparados para trabalhar em lojas, eles tinham que fazer os cálculos por conta própria. Não havia calculadoras. Havia uma ênfase muito grande na aritmética, porque era disso que as pessoas precisavam para trabalhar.
Agora, vivemos em uma época completamente diferente, em que a tecnologia pode fazer esses cálculos melhor do que qualquer pessoa. É um tempo no qual é mais importante o pensamento criativo, flexível, e a resolução de problemas, pensar sobre qual é a melhor abordagem para isso.
A tecnologia não faz isso, ela é boa em cálculos. Passamos quase todo o tempo nas escolas, ensinando cálculos, e não ensinamos essa flexibilidade, que é realmente o mais importante.
Educatrix: É possível, na sua opinião, combinar a construção de um pensamento flexível, uma visão mais conceitual da matemática, e um currículo que é estruturado como um conjuntos de habilidades ou de conteúdos?
Jo Boaler: Sim, é possível. Pegamos essa lista formal do currículo e fizemos livros, muitos dos quais foram traduzidos para o português, que ensinam a mesma matemática de maneiras muito mais criativas, que envolvem os alunos no pensamento. Essa é uma maneira de mudar as coisas, de lançar outros materiais curriculares. Temos que mudar os materiais porque os professores não têm tempo para criar os seus próprios.
Educatrix: Essa é a sua motivação para produzir metodologias e materiais para professores? Como isso se articula com suas pesquisas e a ideia de Mentalidade Matemática?
Jo Boaler: Eu já estava familiarizada com a importância de como a matemática é abordada há muito tempo, mas foi há cerca de 10, 12 anos que o trabalho sobre Mentalidades Matemáticas teve início.
Eu estava me mudando de volta para Stanford pela segunda vez e conheci Carol Dweck [criadora do termo mentalidade do crescimento] e alguns neurocientistas. Havia uma neurociência realmente incrível surgindo, mostrando como o nosso cérebro processa a matemática e que, na verdade, temos cinco caminhos diferentes, que podem processar ideias matemáticas.
Duas delas são visuais. Portanto, há tantas evidências concretas de que precisamos fazer algo diferente com a matemática que achei que precisávamos divulgar mais isso para as pessoas. Na verdade, a primeira coisa que fiz foi criar um curso chamado Como Aprender Matemática, acho que foi em 2014, e era gratuito.
Então, coloquei essas ideias nesse curso on-line e as disponibilizei, sem saber se alguém iria fazer. Mas, naquele primeiro verão, 30 mil professores fizeram o curso. Eles começaram a compartilhar com outras pessoas, e isso cresceu cada vez mais.
Foi quando os professores que fizeram o curso começaram a me escrever dizendo: “Agora que fizemos o curso, que foi incrível, o que vem a seguir?”. Então, foi quando decidimos começar o YouCubed e colocar algumas das ideias em um site.
O YouCubed começou em 2015, eu acho, e colocamos as pesquisas sobre mentalidades, mas sabíamos que os professores não tinham tempo para sentar e ler muitas pesquisas, então também colocamos exercícios de matemática que sabíamos que eram bons para os alunos. O crescimento foi muito rápido.
Começamos a fazer workshops em Stanford, e um deles contou com a participação do grupo do Brasil. O Instituto Sidarta teve a ideia de levar isso para o Brasil. Eles sabiam que essas ideias não eram difundidas no Brasil, e que havia muito trauma com a matemática, então fizeram um trabalho realmente importante, que traduziu todo o YouCubed e os meus livros para o português, o que contribuiu para difundir a abordagem Mentalidades Matemáticas.

Educatrix: Você pode explicar melhor o conceito de Mentalidades Matemáticas?
Jo Boaler: A maioria dos alunos nos Estados Unidos, e sei que isso também acontece em outros países, ainda acredita que uma pessoa tem ou não um cérebro matemático.
Talvez as pessoas não acreditem nisso quando começam a estudar, mas quando começam passar por dificuldades na escola, quando percebem que outras crianças não as têm, elas passam a acreditar que essas outras crianças têm um cérebro bom para matemática, e elas não. Quando uma criança começa ter essa ideia, começa a ir mal em matemática. Já sabemos que o que uma pessoa acredita sobre si mesma muda a forma como seu cérebro funciona.
Existem esses alunos, que não acreditam que têm um cérebro para matemática, e seus pais muitas vezes reforçam essas mensagens. Uma das nossas principais missões, quando começamos o YouCubed, foi livrar-nos dessa ideia.
Eu sabia que isso não era verdade no meu trabalho como professora, mas também sabia que muitas pessoas acreditavam nisso. A neurociência mostra que isso realmente não é verdade, que o cérebro de todas as pessoas está sempre se desenvolvendo, crescendo, fortalecendo-se, e que não nascemos com caminhos matemáticos pré-definidos. Nós os desenvolvemos ao longo da vida, e qualquer pessoa pode desenvolver os caminhos dos quais precisa para se sair bem em matemática.
Queríamos muito compartilhar essa informação, e foi o que fizemos. Ela realmente se difundiu em muitos lugares, mas ainda há muitas pessoas que acreditam no mito do cérebro matemático a ser alcançadas por nosso projeto.
Também há quem diga que os meninos são melhores que as meninas em matemática, o que está associado à maneira como a cultura está estruturada.

Educatrix: Como você vê o ambiente de ensino de matemática no Brasil?
Jo Boaler: Com certeza, há trabalho a ser feito no Brasil. Parece que muitos professores sofrem com a ideia de que não tinham um cérebro matemático e têm um trauma matemático bastante significativo, principalmente nos anos do Ensino Fundamental. Por isso, é muito importante trabalhar com os professores e compartilhar essas ideias. Percebo que as pessoas estão muito abertas a elas, e que talvez precisam acreditar um pouco mais no potencial de mudança.
O que torna uma aula de matemática realmente boa é quando você confia no raciocínio dos alunos, estimula-os a pensar e usa isso como base para a discussão. Lembro-me de quando eu tinha 17 anos. Tinha uma professora de matemática que simplesmente nos convidava a conversar. Ela não tinha tecnologia nem materiais bons, mas acreditava realmente que os alunos deveriam ser os responsáveis por pensar e discutir.
Portanto, os professores podem fazer essa mudança em suas próprias salas de aula, sem dinheiro ou infraestrutura. Agora, é claro, dinheiro e infraestrutura são úteis. O que descobri em meu trabalho com professores ao longo dos anos é que você precisa de tempo para que eles experimentem a matemática de maneira diferente.
Acredito que, se eu tiver dois dias com o professor, mesmo que ele venha pensando que matemática é apenas uma lista de regras, ele mudará quando realmente experimentar por si mesmo e ver as conexões ou ver a matemática de maneira diferente, mas isso envolve financiamento, para que os professores tenham tempo e espaço para experimentar.
Educatrix: Você contou que, alguns anos atrás, a neurociência trouxe novos insights e perspectivas para a compreensão de como funciona a aprendizagem da matemática. Isso ainda é verdade hoje ou já existem evidências científicas de outras áreas que podem ajudar a evoluir nesse aspecto?
Jo Boaler: Os neurocientistas continuam a trazer informações importantes sobre matemática e o cérebro, mas esse não é o único campo de pesquisa. Acho que as ciências da aprendizagem em geral são um campo muito bom para descobrir o que funciona e o que não funciona. Os neurocientistas não pesquisam especificamente sobre escolas ou ensino, então é necessário que outros pesquisadores precisem fazer esse tipo de pesquisa de tradução, pessoas que sejam treinadas para estudar ensino-aprendizagem e que tenham métodos diferentes para realmente explorar o que os alunos estão aprendendo.

Jo Boaler
é professora de Educação Matemática em Stanford, cofundadora do YouCubed e criadora da abordagem Mentalidades Matemáticas. Autora e pesquisadora, defende que todos podem aprender matemática em alto nível e já publicou 14 livros sobre educação e psicologia.
Para Saber Mais
- YOUCUBED. Disponível em https://mod.lk/ed28_en1. Acesso em: 22 jan. 2026.
- BOALER, Jo. Stanford Online: Como aprender matemática: para estudantes. Stanford Online, Califórnia, 2025. Disponível em: https://mod.lk/ed28_en2. Acesso em: 23 jan. 2026.
- INSTITUTO SIDARTA. Instituto Sidarta. São Paulo, 1998. Disponível em: https://mod.lk/ed28_en3. Acesso em: 24 jan. 2026.
