A Inteligência Artificial na educação, promessas e realidade
Uso de recursos da IA Generativa se difunde entre alunos, antes que escolas desenvolvam propostas curriculares, e riscos aumentam.

Texto: Paulo de Camargo

DESDE QUE as primeiras versões de aplicações baseadas em Inteligência Artificial Generativa foram lançadas, em 2022, escolas de todo o mundo voltaram os olhos para o impacto dessa tecnologia disruptiva na educação. Em 2025, pelo menos 15 países já haviam iniciado reformas curriculares para incluir o tema, segundo dados da Unesco. No Brasil, movimentos importantes começaram a acontecer.
O Piauí deu início a uma das mais ousadas transformações. Nesse estado, a política de Educação Digital está articulada com a ampliação do tempo integral – que cresceu cinco vezes desde 2022, chegando à totalidade das matrículas de Ensino Médio — e com a ampliação da Educação Profissional e Tecnológica, que hoje abrange mais de 50% das matrículas. Entre os cursos ofertados está o de Desenvolvimento de Sistemas com Ênfase em Desenvolvimento de Sistemas. A expansão da IA já levou à formação de 800 mil professores, inclusive com uma rede colaborativa denominada Usina IA.
A proposta curricular do Piauí foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e fundamenta-se no que se chamou de Letramento em Dados, Letramento em Algoritmos e Letramento em Modelos. “Trata – se de pensar com a IA e pensar sobre a IA”, diz o pesquisador Christian Brackmann, um dos coordenadores do projeto.
O novo referencial curricular da rede estadual do Piauí tem por objetivo, entre outros, compreender os princípios da Inteligência Artificial centrada no planeta, identificando riscos, implicações éticas e suas aplicações para a sociedade, analisando desafios e impactos na convivência social e nos direitos humanos. Além disso, busca formar alunos e professores capazes de conhecer os fundamentos da IA, inclusive sobre suas limitações e suas possibilidades. Da mesma forma, os envolvidos aprendem a aplicar os conceitos e as ferramentas e a relacionar a IA com o mundo do trabalho (veja box a seguir).
MATRIZ COMPETÊNCIAS REDE ESTADUAL DO PIAUÍ
- COMPREENDER OS PRINCÍPIOS da Inteligência Artificial centrada no planeta, identificando riscos, implicações éticas e suas aplicações para a sociedade, analisando desafios e impactos na convivência social e nos direitos humanos.
- DEMONSTRAR CONHECIMENTOS sobre os fundamentos da IA, incluindo conceitos básicos e princípios de funcionamento, exercendo a criticidade na análise de suas limitações, suas possibilidades e seus impactos sociais e éticos.
- AVALIAR SISTEMAS DE IA COM SOLUÇÕES ÉTICAS para problemas reais e elaborar aplicações criativas, considerando aspectos éticos e explorando o potencial da IA em diferentes contextos.
- COMPREENDER E APLICAR CONCEITOS DE IA e aprendizado de máquina, analisando suas possibilidades, suas limitações, seus impactos éticos e suas aplicações em diferentes contextos.
- RELACIONAR A IA AO MUNDO DO TRABALHO, investigando como ela transforma profissões e contribui para o desenvolvimento de novas habilidades.
E o Piauí não foi o único estado. São Paulo, não sem enfrentar polêmicas, adotou ferramentas para corrigir automaticamente lições de casa dos alunos, bem como redações. Nas redes particulares, muitas escolas aprofundaram mudanças curriculares.
Ainda que de forma mais lenta do que muitos gostariam, o Ministério da Educação começou, também, a dar os primeiros campos no mundo da IA, por meio da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas. Foram feitos investimentos de R$ 3 bilhões em conectividade. No campo pedagógico, o MEC lançou o Referencial de Saberes Digitais Docentes, com um autodiagnóstico para que os docentes conheçam suas competências digitais. Além disso, mais de 80 cursos de educação digital e midiática foram ofertados virtualmente. No bojo desse esforço, o Conselho Nacional de Educação aprovou as primeiras “Diretrizes Operacionais Nacionais sobre o uso de dispositivos digitais em espaços escolares e integração curricular de educação digital e midiática”.
As Diretrizes do CNE trazem, pela primeira vez, orientações para as redes de ensino, como a integração do tema da educação digital e midiática de forma transversal ou como componente curricular, a compreensão do conceito de algoritmo e do uso de dados para o treinamento de máquinas, das plataformas digitais e das diferentes formas de Inteligência Artificial — IA, além de suas implicações éticas e sociais. Propõe, também, o letramento computacional e o desenvolvimento de habilidades específicas e estabelece a cidadania digital como dimensão estruturante.
Por fim, o CNE determina que a construção dos currículos das rede públicas deve se fundamentar na garantia de direitos individuais e coletivos, no contexto de compreensão da tecnologia como bem comum, considerando as desigualdades e os riscos de violência presentes no ambiente digital, com reflexões sobre o modelo de negócio das plataformas digitais e os temas de regulação.
Longe de representar o investimento em uma tecnologia que ainda está no campo das promessas do futuro, esses exemplos refletem como a IA já começa a ser incorporada pelas escolas no presente, com grande impacto pedagógico. Mas, afinal, como a IA vai transformar os processos de aprendizagem?
Em recente apresentação no Brasil, em um evento realizado no Ministério da Educação, o especialista Fengchun Miao, que lidera os projetos da Unesco no campo da IA, chamou a atenção para a urgência do tema. Para ele, há uma transformação em curso na educação, que se explica pela formação de um triângulo: se até hoje a relação pedagógica se baseava na agência do professor e do aluno, agora existe uma tecnologia projetada para imitar o comportamento e o pensamento humano. “Isso tem um impacto muito profundo em nosso ensino, na aprendizagem e na avaliação”, disse.
Na sua visão, os efeitos da Inteligência Artificial na educação são, em grande parte, produtos indiretos da competência humana em IA. É o que definirá nossa capacidade de administrar os impactos negativos e bem aproveitar os potencialmente positivos. Para Miao, a IA se tornou uma nova infraestrutura invisível e onipresente na sociedade, processando os dados que todos geram. Na educação, conforme estudos já mostram, seu uso inadequado podem minar a autonomia dos alunos, o pensamento crítico e a criatividade.
Afinal, em um primeiro momento, a maior tentação é mesmo utilizar as ferramentas para fazer trabalhos e responder a exercícios, substituindo a própria autonomia. Isso torna necessário — e urgente — propor formas de garantir aos alunos desenvolver competências de colaboração humana e Inteligência Artificial, ou seja, ensiná-los a usar a máquina não para abdicar de suas próprias competências, mas para potencializá-las.
Da mesma forma, diz o especialista chinês, é preciso proteger os direitos dos professores e, em seguida, redefinir gradualmente seu papel. Hoje, já estão em desenvolvimento, por exemplo, os primeiros projetos da indústria tecnológica em que atividades docentes são substituídas por tutores personalizados de IA. “Precisamos defender continuamente a competência dos professores e apoiá-los no desenvolvimento de novas habilidades”, afirma.
A Unesco vem liderando globalmente a discussão sobre os riscos e as possibilidades da IA produzindo uma série de documentos que balizam as discussões. Essa agência da ONU alerta, por exemplo, para riscos, como o agravamento da pobreza digital, ou seja, o aumento da desigualdade entre os que têm acesso aos recursos e os que não têm; para o uso da tecnologia sem consentimento; e para a redução da diversidade de opiniões, bem como para a falta de transparência das grandes empresas de tecnologia.
Por isso, a Unesco propôs um framework, ou seja, um marco referencial para professores e alunos para o uso de IA. Para os docentes, esse marco propõe uma mentalidade centrada sempre no ser humano, o uso ético, o conhecimento dos fundamentos e as aplicações da IA, o desenvolvimento de uma pedagogia da IA e o uso da Inteligência Artificial para o desenvolvimento profissional. O marco vem sendo utilizado por diferentes países, incluindo o Brasil, para inovações curriculares que contemplem o advento dessa tecnologia disruptiva. “Há duas perguntas fundamentais: que tipo de sociedade humana queremos construir? Em segundo lugar, que tipo de competência humana precisamos preparar para essa sociedade humana desejada na era da IA?”, resume Miao.

MARCO REFERENCIAL GLOBAL UNESCO COMPETÊNCIAS DE IA PARA PROFESSORES


CIDADANIA DIGITAL: Um aprendizado par a toda a comunidade
PARECIA SER UM DEBATE convencional entre alunos, no formato de uma assembleia da ONU, em que cada comitê representa um país para defender propostas, argumentar e buscar consensos. Mas havia um lugar vazio na mesa de um dos países orientais a ser representados. Será que os alunos de alguma escola convidada teriam faltado? Logo se descobriu que não: desta vez, esse país seria representado por um avatar da Inteligência Artificial. Que surpresa!
Ao longo dos cinco dias, a IA entrou nos debates e espantou a todos com seus argumentos e seus posicionamentos, que pareciam se alinhar com as teses de muitos alunos. Todos ficaram maravilhados até que a própria IA lhes explicou que não havia criado nada. Só o que fez foi utilizar as informações geradas pelos próprios jovens, em suas pesquisas preparatórias e seus debates.
A partir daí começou o verdadeiro aprendizado: os alunos se deram conta de que não há mágica na IA, pois tudo o que faz é gerar informações a partir de conteúdos já disponíveis, e, por isso, pode haver sérias questões de autoria e mesmo de veracidade envolvidas. Os jovens puderam entender, também, que todos somos responsáveis pelo bom uso dos recursos, que ética é uma palavra-chave, que os seres humanos devem estar acima de tudo e, por isso, a regulamentação é necessária. Desenvolvida pelo professor Mattheus Pina, do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, a IA Xia Ada Turing foi assim batizada em homenagem a três grandes precursores dessa tecnologia. No final de 2025, chegou à fase final de um importante prêmio de educação e tecnologia, nos Estados Unidos.
O exemplo do Dante não saiu da cartola. A escola foi uma das primeiras instituições de ensino brasileiras a entender o possível impacto da IA na educação, introduzindo uma disciplina eletiva sobre o assunto ainda em 2018, antes do advento dos chats baseados em IA Generativa. Depois, o Dante estabeleceu um comitê para criar um currículo de IA e segue desenvolvendo atividades de letramento e cidadania digital para todos os funcionários, desde os operacionais, e para as famílias, além de alunos e de professores. “Se os alunos não discernirem entre verdade e mentira, também não saberão a diferença entre bem e mal”, acredita a coordenadora de tecnologia Verônica Cannatá, uma das responsáveis pelo projeto desenvolvido pelo colégio.
Quando a questão é a prioridade dada ao tema, a China surge como exemplo sempre lembrado. Afinal, o país não apenas protagonizou a primeira reforma curricular para inserir o tema da IA, ainda em 2004, como também, em 2017, atualizou o currículo, ampliando para cinco disciplinas com o tema da IA depois de novas atualizações. Em 2022, o país adotou um currículo nacional de ciência da informação para os alunos a partir dos 6 anos. Em 2025, teve o início da implementação da nova matriz curricular. Foram adotados quatro aspectos principais, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio: Conhecimentos Fundamentais de IA; Aplicações e Tecnologias; Métodos para a Realização da IA; e Ética e Sociedade. Os frutos dessa prioridade ficam cada vez mais visíveis: três em cada quatro dos desenvolvedores em IA no mundo são chineses.
A IA E A ESCOLA: Modos de Utilizar
Há, ainda, um longo percurso a seguir, especialmente nas redes públicas. Mas é preciso começar a trilhá-lo. Ainda em meio a muitas especulações e a exercícios de futurismo, já existem alguns caminhos concretos sobre como a IA vem sendo utilizada na educação mundo afora.
No Brasil, país que abraça rapidamente as novas formas de comunicação social, o uso da IA rapidamente se difundiu nas escolas, mas nem sempre da maneira mais adequada. Todo professor sabe como é difícil discernir entre o que foi produzido por alunos ou por IA. Para colar, realizar suas tarefas, produzir textos, os chats de Inteligência Artificial começaram a ser amplamente utilizados — o que pode acarretar prejuízos. “Muitas pesquisas indicam que há uma perda do potencial cognitivo, pois os cérebros se tornam preguiçosos”, diz a pesquisadora em neurociências, Telma Pantano.
Da mesma forma, a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), um estudo recente da OCDE, mostrou que 56% dos professores brasileiros dizem já utilizar a IA em seu cotidiano, em ações como preparação de aulas e busca de conteúdos para enriquecê-las. Isso significa quase o dobro da média observada nos países europeus. O maior uso é a geração de planos de aula ou de atividades e para calibrar as atividades de acordo com o perfil dos alunos, bem como para resumir informações. De acordo com o estudo, a IA é menos utilizada quando se trata de revisar dados sobre a participação dos estudantes, avaliar e corrigir trabalhos ou gerar feedbacks.
Acompanhando projetos de educação e tecnologia em diversos países, o diretor global de produtos da Santillana, Ernesto Núñez Mejía, criou um modelo próprio para diferenciar as formas pelas quais a IA pode ser utilizada por alunos, professores e gestores. Para Núñez, há atividades realizadas em uma escola que podem ser mais automatizáveis, ou, em suas palavras, plenamente potencializadas com o uso dos recursos de IA, com ganhos de tempo e produtividade. Existem outras que podem ser parcialmente potencializadas e, por fim, aquelas que necessariamente precisam ser lideradas e executadas por pessoas.
No campo da docência, por exemplo, para a geração de materiais e de planejamentos, a correção simples de exercícios e a adaptação de conteúdos, as ferramentas de IA podem ser de grande valia. Ao mesmo tempo, com a condução do professor, a IA pode ajudar na análise de avaliações abertas e na criação de percursos mais personalizados pelos estudantes. Mas apenas os seres humanos podem cuidar, escutar, gerar vínculos de confiança, formar valores e propósito, exemplifica o diretor.
Os alunos podem se beneficiar dos chats para gerar resumos e explicações, fazer consultas e questionamentos rápidos. Mas o uso se torna mais rico quando a IA potencializa os estudos, ajudando os estudantes a explorar hipóteses e ideias e a construir trajetórias de aprendizagem mais personalizadas. Os alunos podem fazer escolhas com responsabilidade e ética, fazer questionamentos autênticos e agregar sentido e identidade ao que estão fazendo. “A IA não é mágica, não veio substituir os professores; não diz a verdade — apenas calcula probabilidades; não é neutra: precisa de princípios humanos para orientar seu uso”, resume Ernesto Nuñez.
Pensando nos educadores de escolas públicas, a Moderna adaptou a plataforma da Santillana Educação, dando origem ao ambiente Plano de Aula IA com os módulos de plano de aula e geração de questões, colaborando com o planejamento de aulas e com a elaboração de atividades a partir dos livros didáticos da editora, aprovados pelo MEC no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Atualmente, a ferramenta já pode ser utilizada pelos educadores do Ensino Médio e há previsão de novos módulos para a geração de apresentações e de projetos. O cadastro e o acesso são gratuitos pela plataforma ModernAmigos e a ferramenta está em estudo para implementação nos outros segmentos ofertados pela Moderna.
Para Saber Mais
- BRASIL. Ministério da Educação. Referencial Saberes Digitais Docentes. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td. Acesso em: 24 jan. 2026.
- BRASIL. Ministério da Educação. Escolas Conectadas. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td1. Acesso em: 24 jan. 2026.
- BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 2/2025. Diretrizes Operacionais Nacionais sobre o uso de dispositivos digitais em espaços escolares e integração curricular de educação digital e midiática. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td2. Acesso em: 24 jan. 2026.
- OECD. Results from TALIS 2024. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td3. Acesso em: 24 jan. 2026.
- MODERNA. ModernAmigos. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td4. Acesso em: 24 jan. 2026.
- IBM. Inteligência Artificial Generativa. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td5. Acesso em: 27 jan. 2026.
- UNESCO. Marco referencial de competências em IA para professores. Paris: UNESCO, 2023. Disponível em: https://mod.lk/ed28_td6. Acesso em: 31 jan. 2026.
