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Olhares para a escola: perdas e ganhos

A reorganização da dinâmica entre escolas e famílias pode construir um legado de parceria e de empatia e resiliência, mas também pode reverberar a diferença de valores entre a escola e a educação familiar.

Texto Gustavo Wigman

A pandemia da Covid-19 impactou intensamente a vida global. Milhares de práticas, negócios, valores, instituições, crenças e comunidades viram-se transformadas, questionadas, em xeque. A educação esteve — e está — no epicentro dessas mudanças. Embora o modelo de educação em vigor no mundo desde o final do século 19 tenha passado por algumas atualizações metodológicas e práticas, sua estrutura mais básica seguiu praticamente intacta (e muito pouco questionada): em determinada idade, os pais levam seus filhos para a escola e apostam no trabalho da equipe pedagógica para a formação deles. 

A quarentena forçada e o consequente ensino remoto emergencial transformaram esse quadro: a escola adentrou as casas das famílias e os pais foram convocados a tomar parte na organização e, em muitos casos, no ensino de seus filhos, lançando holofotes sobre as práticas educacionais vigentes. Se as famílias apostavam, talvez cegamente, no trabalho das escolas, se estavam distantes do funcionamento delas, o ensino remoto rapidamente forçou a aproximação entre os dois lados. 

A mudança causou transtorno para famílias, professores, alunos e escolas em geral. Foi preciso aprender novas tecnologias, metodologias, rotinas e práticas; novas formas de comunicação e de relacionamento — muita resiliência, maleabilidade, tolerância e inventividade. Entre os principais ganhos, essa aproximação família-escola forçou os pais a serem parte da educação dos seus filhos e as escolas a trazerem mais clareza a seu trabalho.

A escola “Big Brother”

Na rotina pandêmica, pela primeira vez, os pais tiveram a oportunidade de assistir às aulas de seus filhos, e os professores se viram em uma vitrine, avaliados aula após aula. Os argumentos usados pelas famílias para disseminar e discutir opiniões e críticas nas redes sociais ganharam peso com as observações e os fatos sobre as dinâmicas escolares.

E o que eles observaram? Em um primeiro momento, a dificuldade de muitas escolas – e professores – de aderir às plataformas virtuais de ensino remoto e garantir que seus processos de ensino e, em especial, avaliação fossem transpostos de modo satisfatório para o virtual. Em certo sentido, isso escancarou a falta de visão das escolas sobre os ganhos que a tecnologia pode trazer aos processos de aprendizagem, à gestão escolar e, em especial, à comunicação e ao estreitamento da relação com as famílias. 

Alunos e famílias, diante das dificuldades do ensino remoto, passaram a problematizar a estratégia pedagógica adotada pela escola sob diversos ângulos, e o debate seguiu bastante descoordenado: alguns exigiam mais conteúdo, outros julgavam a carga excessiva; muitos apontavam a dificuldade de avaliar habilidades e competências, enquanto outros se preocupavam somente com a possibilidade de cola nas provas; enquanto alguns debatiam formatos de ensino híbrido, outros focavam na necessidade de transformar a escola por completo. 

Alguns colégios optaram por filtrar os questionamentos dos pais, sob a premissa de que eles não possuem qualificação técnica para avaliar o conteúdo ou o formato das aulas. Será que isso é verdade? A educação tem migrado para o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias para o sucesso profissional. Ao mesmo tempo, há pais que são professores, outros estão estudando e comparam a experiência dos filhos com a que têm em seus cursos; vários passam por treinamentos corporativos, muitos gerenciam grandes equipes ou são responsáveis pelo treinamento delas. 

Então, será mesmo que os pais realmente não enxergam os gargalos na formação dos alunos? Será que não é hora de aproveitar a aproximação dos pais para implementar de fato as mudanças que esperamos há tempos no modelo de educação? 

Este parece ser um momento bastante propício a essa reflexão. E, provavelmente, professores e colégios que não se adequarem às novas demandas correm o risco de enfrentar o “paredão” das famílias.

O papel da escola como agente autêntico/autoral

Assim como em outros setores da economia, o planejamento e o dia a dia de educadores viraram de ponta-cabeça com a pandemia. A dificuldade dos colégios em lidar com o digital abriu caminho para um maior poder de influência dos sistemas de ensino, que, estrategicamente, disponibilizaram suas ferramentas tecnológicas e conteúdo digital de forma gratuita para vários colégios. 

À primeira vista uma saída perfeita para acabar com a confusão e facilitar a vida dos colégios, esse movimento esconde uma armadilha perigosa: ele reduz a escola ao papel de distribuidora de uma solução comercial padronizada, disponível para qualquer concorrente, e a torna dependente do fornecedor. 

É evidente que a escola pode terceirizar vários setores de sua operação, desde a manutenção até a gestão financeira, mas não parece cabível que ela terceirize o núcleo de sua atividade, o saber, os processos de ensino e aprendizagem, desde a curadoria do conteúdo até a aprendizagem socioemocional. 

Uma escola deve dialogar com o que há de mais moderno em metodologias educacionais e com documentos e legislações que organizam a educação como um todo; mas, acima de tudo, uma escola é uma instituição autoral e singular, com valores próprios, situada em determinado ambiente e comunidade, com os quais interage de modo autêntico. Desse modo, a escola precisa possuir sua própria voz, sua própria abordagem e sua própria visão. 

A escola deve partir do que há de consensual na educação contemporânea para construir relacionamentos e linguagens próprios. Assim como outras plataformas de sucesso, a escola é um ambiente que possibilita que os atores de determinado contexto desenvolvam conteúdos em conjunto e estruturem a forma como eles são personalizados e aplicados. No entanto, ao contrário da maioria dos negócios digitais (e dos sistemas de ensino), a escola pode ampliar esse conceito de plataforma ao ambiente físico, com atividades que reforcem o processo de aprendizagem e contribuam para a autenticidade e a exclusividade da sua oferta. 

Essa oferta deve ser fortalecida com o combate às fragilidades na comunicação com famílias e alunos e, acima de tudo, na fundamentação do trabalho de desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Há décadas muitas escolas enfatizam dimensões socioemocionais em seus currículos e discursos, mas, com a pressão do cumprimento de tarefas e prazos de provas, o tema permaneceu confinado a uma zona abstrata. O momento atual deixou definitivamente claro que autoconhecimento, empatia e outras habilidades de relacionamento interpessoal são bem mais relevantes do que alguns temas com pouca aplicação prática, e tem forçado as escolas a cumprir suas promessas nessa frente.

Como as crianças vão lidar com as adversidades e a tomada de riscos? Como poderão se autoconhecer e fazer escolhas mais conscientes? Como prepará-las para serem bons líderes no futuro? Como ajudá-las a desenvolver a resiliência para viver em um mundo em constante transformação? Como uma escola pode ajudar seus alunos a lidar com essas questões se seu corpo docente e seu gestor têm dificuldade com as próprias habilidades? Se uma habilidade não estiver cristalizada no ambiente escolar, nem disponível em programas terceirizados, como ela será exercida e desenvolvida? 

Essas e outras perguntas precisam ser respondidas, ou pelo menos consideradas de forma prática e rotineira pelas escolas que tenham a intenção de seguir como escolha das famílias de agora em diante. 

Valores em questão: família, escola, sociedade global

Tratamos até agora de dimensões pedagógicas da experiência escolar como um todo. Uma dessas dimensões, no entanto, deve ganhar mais destaque nas reflexões que têm contribuído para o enfrentamento dos atuais desafios educacionais: a escola como um espaço de vivência de valores e uma instituição comprometida com princípios. 

A escola precisa possuir sua própria voz, sua própria abordagem e sua própria visão.

Ao entrar nas casas das famílias — e por um período extremamente longo —, a escola escancarou suas práticas pedagógicas e deixou claro como o conjunto de valores que diz defender é efetivamente vivido na experiência de professores e alunos. Os princípios norteadores de uma formação em sentido abrangente passaram a estar sob os refletores da avaliação dos pais, gerando uma dinâmica de interação possivelmente inédita entre os valores da família e os valores da escola.

Quando falamos em valores, é tentador olhar para o território da moral, dos costumes, do comportamento – ou até da religião. No entanto, por mais decisivos que esses elementos sejam, há mais de meio século que as nações avançadas abandonaram a pretensão de fazer das salas de aula ambientes de reprodução mecânica ou de imposição de valores de natureza moral. Trata-se de uma pré-condição inegociável para que a diversidade e o pluralismo realmente encontrados na experiência social humana atual sejam respeitados, incentivados e até mesmo construídos na escola e a partir dela.

Isso não quer dizer que a escola não seja uma instituição cuja identidade traz a marca dos valores que a norteiam — a escola é, em verdade, um espaço de realização vívida desses valores na formação dos alunos. Nossa condição requer — e isso se tornou agudamente relevante durante a pandemia — que os valores da escola possam dar abrigo respeitoso, harmonioso e seguro a diversas visões morais, comportamentais, sociais e religiosas no seio da comunidade escolar. 

As escolas buscarem consolidar esse perfil não é novidade. Prova disso são as diversas e excelentes instituições que se definem por propósitos como: 1 a educação para um mundo globalmente conectado, em que múltiplas culturas interagem de maneira complexa; 2 a preparação dos alunos para atuar em um mundo caracterizado por mudanças cada vez mais intensas e velozes; 3 a preocupação nuclear com o desenvolvimento de habilidades e competências cooperativas, voltadas para a resolução de problemas e solidamente estabelecidas em sujeitos autônomos, solidários, emocionalmente maduros e capazes. 

Esses são exemplos concretos de valores que as escolas explicitamente têm defendido, praticado e ensinado; e eles não entram em conflito com valores familiares de qualquer natureza — pelo contrário, dão guarida à diversidade de valores morais, comportamentais e religiosos compreendida em cada família de forma singular. O que vivemos ao longo dos últimos meses é a experiência mais radical que a pandemia provocou de trazer o modo como as escolas efetivamente são capazes de honrar seu compromisso com esses valores na prática educacional.

Na dinâmica de interação de valores família-escola, não apenas comprovou-se a verdade já tantas vezes anunciada em pesquisas e mais pesquisas de que o envolvimento da família com a instituição traz efeitos positivos para a escola e para a aprendizagem, como consolidou-se a escola como espaço — mesmo que virtual — de vivência e amadurecimento de valores-chave para a vida no cada vez mais complexo e surpreendente mundo em que nossas crianças e jovens vivem — e viverão. 

A execução e o discurso devem estar alinhados: muito se fala sobre a importância de desenvolver as competências socioemocionais, a capacidade de comunicação e o pensamento crítico, e todos concordam que a escola é um ambiente propício para esse aprendizado. No entanto, muitos gestores não estão conseguindo colocar esse conjunto de habilidades em prática, tendo dificuldade em manter o foco e considerar soluções criativas para driblar a crise. É cada vez mais fundamental entregar as promessas feitas para os pais e demonstrar, com atitudes, que os alunos têm bons exemplos dessas competências dentro do colégio.

Diagnóstico de crise, caminho para mudanças

O quadro exposto até aqui deixa claro um diagnóstico bastante consensual entre profissionais e especialistas da área da educação: às transformações históricas pelas quais passava a escola tradicional nas últimas décadas, somaram-se a vertiginosa rapidez da inovação tecnológica, afetando diversos aspectos da sociabilidade humana, e o impacto econômico da maior calamidade sanitária em mais de um século de história. Como vimos, desde muito antes do que vivemos atualmente, nossas vidas já estavam radicalmente alteradas, tanto no mercado de trabalho como nas rotinas pessoais – já éramos mais digitais, mais conectados e mais demandados. 

Nesse sentido, os tremendos efeitos da pandemia sobre a área da Educação antes tornaram mais explícitos os pontos fortes e fracos de cada instituição escolar do que propriamente apresentaram demandas inesperadas. À exceção das exigências específicas das condições de saúde da comunidade escolar, já era esperado que as escolas estivessem preparadas em quesitos como ensino digital, novos mecanismos de avaliação e foco no desenvolvimento socioemocional, incorporando esses elementos de maneira orgânica à identidade da escola, constituindo aquilo que estamos chamando de voz própria de cada instituição. Com isso, não queremos de modo algum diminuir a dimensão dos desafios únicos que reconhecemos no cenário atual. Antes, procuramos assinalar que muitos dos passos decisivos para o enfrentamento da difícil realidade que se impôs no último ano já vinham sendo trilhados, com excelentes resultados, por diversas escolas. 

Quando a crise passar, não voltaremos à vida normal que conhecíamos. Muito terá mudado, e caberá a nós, como sociedade, construir um novo significado para a palavra “normal”.  A retomada econômica não será fácil. No cenário pós-crise, terão mais chance de sobreviver aqueles que conseguirem provar o valor que entregam às famílias. É preciso fazer e mostrar na mesma medida.

O objetivo deste artigo não é trazer respostas. Muito menos fórmulas ou receitas. A intenção é fomentar a reflexão a partir de temas sobre os quais consideramos sensato que os colégios se debrucem. É urgente que gestores e educadores pensem em como desenvolver cada um deles com seriedade e agilidade. Temos agora a oportunidade de acelerar um futuro que seria, de qualquer forma, inevitável. Vamos em frente! 

GUSTAVO WIGMAN é fundador e CEO do Instituto Vertere. Bacharel em Engenharia Agrônoma pela Unicamp. MBA em Administração de Negócios pela Ibmec Business School. 

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