O que dá resultado na educação de hoje?
Dezoito profissionais envolvidos com educação falam sobre suas percepções sobre a educação atual: um interessante mosaico, com muitos pontos de convergência.
Texto: Rubem Barros

DE UM LADO, a valorização e o respeito à diversidade e ao outro, o acolhimento, a valorização da participação e da escuta de todos, a busca de interesses coletivos, a criação de ambientes saudáveis e os cuidados com a saúde mental. De outro, o monitoramento constante, a avaliação formativa, o trabalho com dados e evidências daquilo que vem propiciando boas experiências de aprendizagem. Ainda que tenham diferentes pontos de partida, esses olhares — um que ressalta mais os aspectos humanos e outro que se volta de forma mais explícita aos desafios da aprendizagem — não são ou podem não ser conflitivos.
Eles são resultado de uma pergunta geral feita a todos os entrevistados: o que dá certo na educação de hoje? Questão a que cada um deveria responder a partir da perspectiva de sua área de atuação. O resultado é um painel rico e variado, na maior parte do tempo convergente. Como costuma acontecer com perguntas sobre a educação, nem sempre é fácil ater-se à experiência vivida, ao que é presente. Por isso, em muitos casos, os entrevistados também projetam aquilo que veem como os próximos passos necessários para que as escolas e a educação de modo geral atinjam um novo patamar no país. Um aspecto, no entanto, parece revelar um consenso social: a necessidade de que todas as vozes envolvidas na educação sejam ouvidas, criando um todo em que todos são agentes ativos de uma transformação em curso.

Gabriel Maia Salgado
é gerente de educação e culturas de crianças
e de adolescentes no Instituto Alana.
1. Crianças e Adolescentes
É PRECISO GARANTIR que todas as pessoas possam estar na escola com dignidade, em condições adequadas de ensinar e aprender, em um processo orientado ao desenvolvimento integral. Isso implica articular o conhecimento historicamente acumulado com a formação para o mundo do trabalho e, sobretudo, com o fortalecimento das múltiplas dimensões humanas de crianças, adolescentes, jovens e adultos.
É essencial que a escola se abra ao território e à comunidade, formando para a vida em comum, promovendo justiça social e ambiental e preparando estudantes e profissionais da educação para um presente e um futuro sustentáveis, inclusivos e democráticos. Garantir o direito à participação de crianças e adolescentes, reconhecendo suas vozes, suas experiências e seus contextos na formulação de políticas, currículos e práticas, é condição fundamental para fortalecer vínculos, pertencimento e participação social em um esforço coletivo de efetivar o direito à educação de qualidade para todas as pessoas.

Nilma Lino Gomes
é professora da Faculdade de Educação da UFMG e ex-membra do Conselho Nacional de Educação.
2. Inclusão e Equidade
O QUE FAZ A DIFERENÇA são as práticas pedagógicas e as ações que reconhecem o direito dos sujeitos pertencentes aos diversos coletivos sociais de estar na escola. Quando a escola ou a universidade enxerga e valoriza as diferenças e assume o dever ético e político de ser um espaço no qual a equidade é um alvo a ser alcançado no cotidiano das práticas pedagógicas, e não um horizonte distante, algo novo acontece. O coletivo se enriquece, o ambiente se democratiza, o currículo é questionado e transformado. Políticas afirmativas, formação de professores — com foco em antirracismo e igualdade de gênero — e currículos que representem a diversidade brasileira têm mostrado resultados concretos: famílias e estudantes se sentem vistos, respeitados, e a vontade de aprender se torna um componente importante da relação pedagógica, e não um peso. A relação ensino-aprendizagem acontece, de fato, quando as pessoas se reconhecem no que está sendo ensinado. O segredo está em construir, juntos, uma cultura de convivência justa, equânime, aberta e afetuosa – na qual todas as pessoas e os grupos, em sua diversidade, tenham o direito à educação garantido.

Raí Mota
é pedagogo, especialista em gestão escolar e consultor. Foi secretário de Educação de Cruz, no Ceará.
3. Gestão Escolar
O QUE DÁ RESULTADO é quando as redes municipais garantem a alfabetização das crianças na idade esperada. [Além disso, é preciso que haja] investimento na formação em serviço, relevante para gestores escolares e professores, e acompanhamento pedagógico sistemático das escolas, por meio de dados “frescos” de aprendizagem dos estudantes, realizados por diagnósticos ou avaliações externas que trazem em tempo real o desempenho dos estudantes. Isso permite às redes agirem com protocolos robustos de intervenção nas práticas pedagógicas escolares.

Doug Alvoroçado
é pedagogo, técnico em eletrônica e mestre em Ensino de Educação Básica.
4. Neurociência
O CÉREBRO APRENDE fazendo conexões e dando sentido. Isso exige que saiamos do modelo em que os agentes agem de forma passiva no processo e mergulhemos em abordagens e metodologias que ativam as redes neurais, com drives de engajamento que podem gerar atenção, estímulos e recompensas.
O sucesso do processo reside na fusão das competências socioemocionais aplicadas de maneira correta, com o uso seguro das tecnologias educacionais, além de abordagens e metodologias de aprendizagem criativa e ativa. A cultura maker, por exemplo, é um laboratório para a plasticidade cerebral. Proporciona desafios reais, colaboração e criação, fortalecendo as conexões sinápticas. O professor, agente mobilizador desse ambiente, precisa de uma formação contínua, que o capacite a orquestrar essa nova abordagem de ensino. Pessoas engajadas, ferramentas úteis e seguras e processos adequados podem trazer resultados e impacto positivo na educação.

César Callegari
é sociólogo e presidente do Conselho Nacional de Educação.
5. Currículo
A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR trouxe reflexos positivos e repercute na produção de livros, materiais e tecnologias educacionais, nas avaliações da aprendizagem, na formação complementar de professores, na elaboração dos currículos escolares e em outras diretrizes curriculares e operacionais que vêm sendo produzidas pelo CNE, como as da Educação Infantil, a do novo Ensino Médio, a da Educação Integral e a de Educação e Cultura Digital.
Contudo, precisa ser revista e atualizada, como também as Diretrizes Curriculares das Licenciaturas. A formação de uma nova geração de professores deve constituir a base de um projeto estratégico de nação, com soberania, democracia, justiça social e ambiental. É necessário conceber uma nova forma de fazer educação que concilie avanços tecnológicos e desafios geopolíticos, sociais e climáticos com um tipo de educação profundamente humanista, para enfrentar nossos dilemas civilizatórios. O novo PNE em discussão no Congresso Nacional deveria ter uma marca: “Professores para a educação do Brasil”.

Priscila Cruz
é mestra em Administração Pública e presidente-executiva do Todos Pela Educação.
6. Uso de Dados
PARA COMPREENDER as políticas que dão resultado na educação, o monitoramento público e o uso qualificado de dados são fundamentais. Sem informação integrada, é impossível planejar com precisão ou avaliar resultados. A criação da Infraestrutura Nacional de Dados da Educação (Inde), prevista no recém-sancionado Sistema Nacional de Educação, representa um avanço importante. Com a integração dos registros e o Identificador Nacional Único do Estudante, será possível acompanhar a trajetória completa dos alunos, da creche ao ensino superior, ampliando a capacidade de gestores e de formuladores de políticas de tomarem decisões baseadas em evidências, essencial para promover equidade e eficiência na educação brasileira.
É necessária, também, a revisão dos instrumentos de monitoramento e de avaliação, como o Ideb e o Saeb, para que reflitam as transformações do sistema educacional nos últimos anos. É preciso aprimorar o cálculo do indicador, preservando sua lógica, mas incorporando dimensões ainda não capturadas, como a desigualdade e o acesso.

Roberta Bento e Taís Bento
são fundadoras do SOS Educação.
7. Relações Familiares
PESQUISAS RECENTES mostram que há um caminho para reduzir os conflitos e a tensão na relação das escolas com as famílias. Ele começa com a escola atuando de forma a oferecer a essas famílias informação de qualidade, sobre pequenos ajustes na rotina que geram um grande impacto no desenvolvimento de cada estudante. Famílias que têm uma relação de parceria com a escola conseguem perceber melhora no desenvolvimento dos filhos em todos os aspectos: nos relacionamentos sociais; na autoestima; na base de habilidades, para vencer desafios do dia a dia; e no desempenho escolar. A parceria entre família e escola é o ponto de partida, também, para a redução das questões de saúde mental dos profissionais da educação e dos adultos responsáveis. Somente na parceria seremos capazes de educar crianças e adolescentes nascidos na era digital para serem felizes no mundo real.

Rosa Alegria
é MSC Futurista e diretora do Teach the Future Brasil.
8. Futurismo
ENSINAR O FUTURO é tão importante quanto ensinar o passado. Quando criamos espaços para a imaginação ativa, para o pensamento sistêmico e para perguntas que não têm respostas prontas, desenvolvemos habilidades antecipatórias, em vez de só injetar conteúdos. Ajudamos a dissolver o medo do desconhecido e fortalecemos a potência criativa das novas gerações. Experiências em escolas brasileiras que já adotam o ensino de futuros mostram que crianças ampliam a visão de mundo, tornam-se mais confiantes e criam soluções originais para os desafios que enfrentam. Educar para o futuro é, portanto, educar para a vida: cultivar consciência, coragem e responsabilidade diante do tempo que ainda não existe, mas que começa a ser construído agora.

Luís Miguel Martins
é presidente da Undime Nacional e secretário municipal de Sud Mennucci, em São Paulo.
9. Políticas Públicas
O QUE TRANSFORMA A REALIDADE educacional é a política construída de forma conjunta com os agentes envolvidos. É fundamental que os entes federados (União, Estados e Municípios) atuem em conjunto, da concepção à implementação, e no desenvolvimento, no monitoramento, na avaliação e na reconstrução do planejado à luz dos resultados obtidos.
Dois exemplos de ações exitosas que tiveram esse percurso: a construção da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), que em cada território recebe nome local e respeita iniciativas já em curso. O poder da eficácia de uma política pública está no fato de ela responder a uma demanda real e ter a indicação de caminhos para a efetividade das ações e a capacidade de envolvimento de todos os agentes do processo: do financiador ao executor, sem deixar de ouvir aqueles que serão objeto dessa política.

Tereza Perez
é pedagoga e presidente da Roda Educativa.
10. Formação Docente
QUANDO HÁ TRABALHO SISTÊMICO, diálogo genuíno na comunidade escolar, quando o PPP nasce da participação dessa comunidade, quando a diversidade e a cultura locais são incorporadas no cotidiano escolar, quando há boa convivência, disponibilidade para arriscar, errar, pesquisar, quando há respeito e colaboração na equipe, reflexão sobre a prática, a atenção e o acolhimento aos estudantes e compromisso com a ideia de que todos podem e querem aprender. Quando se constroem práticas intersetoriais, constituindo redes de proteção. Essas práticas constituem um todo orgânico, potencializando capacidades e o bem-viver — na escola, na comunidade, no planeta.
Para quem vem de fora e quer contribuir com a educação local: é preciso aterrissar, é necessário conhecer o território, escutar as demandas, as potencialidades e as fragilidades, para planejar conjuntamente quais caminhos serão percorridos e quais passos serão dados.

Telma Pantano
é neurocientista, formada em Fonoaudiologia e doutora em Ciências.
11. Neurociência
O QUE TEMOS de evidência científica é que educar envolve a integração adequada de fatores neurobiológicos com fatores ambientais e sociais. Adquirir conhecimento implica integrar e desenvolver habilidades funcionais ao aluno e ao ambiente, e, para isso, a integração socioemocional é a chave da aquisição cognitiva e vice-versa. No processamento cerebral, esses processos estão integrados e são indissolúveis, é preciso considerá-los para desenvolver o potencial educacional.
O aprendizado, tanto o cognitivo quanto o socioemocional, deve ser constante. Não adianta uma enxurrada de conhecimentos sem que o cérebro possa integrá-los e significá-los corretamente. Assim, tanto a aprendizagem cognitiva quanto a socioemocional devem fazer parte da equipe pedagógica e do grupo escolar como um todo, trazendo a necessidade de aquisição e utilização constante desses recursos em diversos ambientes.

Bel Santos Mayer
é educadora social e mestra em Turismo. É coordenadora-geral do Ibeac (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário).
12. Leitura
NA ÁREA DO LIVRO e da leitura, o que mais tem dado certo é o fazer coletivo: ler em grupo, em qualquer idade e etapa escolar — tanto dentro quanto fora da escola —, presentear livros, frequentar bibliotecas e eventos literários, ser parte de círculos de leitura, planejar o tempo para simplesmente ler. Tem surtido efeito conversar sobre o que foi lido e compartilhar “fofocas literárias”, buscar continuamente a bibliodiversidade, ampliar as oportunidades para que cada indivíduo encontre o seu livro — aquele capaz de colocá-lo em um caminho sem volta: o caminho da leitura.

Daniel Munduruku
é escritor e filósofo
13. Filosofia
EDUCAR é trazer para o presente as muitas experiências vividas pelos povos para o tempo presente. Nessa perspectiva, há uma prática que tem dado resultado positivo desde sempre na formação de mentes e corpos comprometidos com o seu tempo: a arte de contar histórias, resumida numa antiga pedagogia ancestral chamada de oralidade. Nesse sentido, a contação de histórias continua cumprindo seu papel milenar de oferecer pertencimento, comprometimento e cuidado com o território onde se vive. Ela funciona como um instrumento para nos lembrar que estamos unidos a uma grande teia que une todas as pontas num único fio do pertencimento.

Luciano Meira
é professor da Universidade Federal de Pernambuco e líder do grupo Proz Educação.
14. Inteligência Artificial
SEGUNDO a Education Endowment Foundation (EEF), pelo menos três intervenções educacionais no âmbito escolar têm impacto acentuado com menor custo de implementação: feedback para os estudantes, metacognição e colaboração entre pares. A Inteligência Artificial, se usada criticamente, pode potencializar muito essas intervenções. No feedback, a IA permite retornos personalizados e imediatos, antes impossíveis em escala. Para habilidades metacognitivas, assistentes virtuais podem guiar os alunos, por meio de processos de autorreflexão e planejamento, tornando explícitas estratégias de aprendizagem que antes dependiam apenas da mediação docente. No trabalho em pares, a IA pode formar grupos otimizados, conforme objetivos pedagógicos, monitorar interações e sugerir suporte à aprendizagem entre pares. O diferencial está em democratizar práticas pedagógicas eficazes, mantendo sua natureza relacional e de baixo custo enquanto escala, porém, ainda submetidas à curadoria e à orquestração dos educadores e das educadoras.

Débora Garofalo
é professora e bacharela em Letras e Pedagogia. É mestra em Linguística Aplicada. Foi finalista do Global Teacher Prize em 2019 e vencedora do Global Teacher Influencer em 2026.
15. Formação Docente
AS PRÁTICAS que geram melhor desempenho são as que combinam expectativas altas, acompanhamento contínuo da aprendizagem e relações de confiança entre estudantes e educadores. Estratégias como avaliação formativa, feedback claro e oportunidades de prática guiada podem ter impacto equivalente a meses adicionais de aprendizagem ao longo do ano. Dados nacionais revelam que escolas que investem em formação docente contínua e colaborativa apresentam avanços consistentes, mesmo em contextos de maior vulnerabilidade social. Assim, o que realmente dá resultado hoje é o uso intencional de práticas baseadas em evidências aliado a uma cultura escolar que sustenta o desenvolvimento integral dos estudantes.
Para avançar mais, é preciso mudar a forma como organizamos o tempo, o trabalho docente e as experiências de aprendizagem e transformar dados em decisões pedagógicas e decisões pedagógicas em políticas internas de escolas que promovem equidade. Isso significa apoiar as equipes para agir de maneira responsiva, usar tecnologia de forma crítica e ampliar o foco para competências socioemocionais que impactem engajamento e permanência. O verdadeiro salto acontece quando a escola se vê como um ecossistema de aprendizagem contínua, no qual cada aluno é acompanhado de perto e cada professor tem condições reais de inovar.

Viviane Mosé
é poeta, filósofa e psicanalista.
16. Filosofia
A MAIOR DIFICULDADE de crianças, adolescentes e jovens é a saúde psíquica, a percepção de um futuro cheio de riscos, em especial ambientais, mas também sociais e humanos. Para que a escola consiga exercer o seu papel, é preciso que, antes de ensinar crianças, jovens e adultos, construa um ambiente favorável. A saúde psíquica não é só uma questão de alunos, mas de professores, de gestores e de funcionários. O que dá resultado é uma escola alegre, viva, disposta a lidar com os desafios do mundo e com os seus próprios; uma escola que não permita que alunos nem professores fiquem isolados, que crie conexões entre as pessoas a partir do que elas têm em comum, ao mesmo tempo em que valorize suas diferenças. Uma escola que exercite o bem-estar e respeite as diferenças individuais de todos. Se criarmos esse ambiente favorável, a educação formal acontecerá bem, com desenvolvimento cognitivo, afetivo e humano.

Ricardo Seballos
é diretor de Produção Editorial da Moderna.
17. Materiais Didáticos
AQUI NA MODERNA, o livro didático é visto como um facilitador que procura dar autonomia ao aluno e apoio ao professor, visando atender à necessidade de compreensão de um mundo em constante transformação. Nesse sentido, ao planejar nossas obras, nos baseamos em documentos oficiais, como as Diretrizes Curriculares Nacionais e a Base Nacional Comum Curricular, e em políticas públicas vigentes, como o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, que são estratégias adequadas para mitigar questões que impossibilitam avançarmos como sociedade mais igualitária. Sempre que possível, enriquecemos o conteúdo tradicional com o tratamento de aspectos regionais, para que o estudante possa se reconhecer na realidade em que vive; de temas relacionados ao meio ambiente, a partir de um trabalho consistente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU; e de questões sociais, valorizando e dando voz a pluralidades existentes no Brasil e ao redor do mundo. Para finalizar, ressaltamos nosso entendimento de que o livro didático é uma importante ferramenta de inclusão social, com recursos de acessibilidade e estratégias didáticas e de avaliação que auxiliam na tomada de decisões importantes para viabilizar o processo de ensino-aprendizagem.”
