fbpx

A arte de transformar a escola

Projetos mostram na prática como as linguagens artísticas criam espaços em que crianças e jovens podem expressar a criatividade, construir sonhos, desenvolver visões de mundo e fortalecer direitos.

Texto: Fernando Leal

Cena do Grupo de Arte: Maria José Aragão.

AO LONGO de mais de duas décadas, o Grupo de Arte Maria José Aragão (Gamar) conquistou prêmios, alcançou reconhecimento nacional e se tornou conhecido de personagens relevantes no cenário da cultura brasileira. De seu catálogo, destacam-se, por exemplo, a montagem de Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, e Baião de Seis, espetáculo de danças populares nordestinas.
Nascido no interior da escola de mesmo nome, o Gamar tem em sua trajetória de sucesso, porém, uma realização bem mais significativa: o impacto transformador na vida de milhares de estudantes, no próprio centro de ensino localizado na Cidade Operária, na capital do Maranhão, e, em certa medida, na comunidade da região, marcada pela vulnerabilidade social.
O projeto atualmente abrange ações em diversas linguagens artísticas (dança, teatro, música e artes visuais), mas começou com uma única iniciativa de leitura e escrita, chamada Palavras ao Vento, envolvendo uma oficina de produção textual do gênero poético e um festival de poesias. Logo, os trabalhos ganharam visibilidade para além dos muros da escola, com convites para apresentações, na forma de performance poético-teatral, em outras instituições de ensino. Os passos seguintes incluíram a promoção de oficinas relacionadas ao fazer teatral – como expressão corporal, leitura dramática e até cenografia —, que culminaram na montagem da obra de Shakespeare, vencedora do Festival Maranhense de Teatro Estudantil (Femate) de 2002.
“Quando iniciamos o trabalho com a arte, percebemos que ela revelava não apenas o potencial dos nossos jovens, mas também suas vulnerabilidades e suas ausências. Foi por meio desse processo que notamos a força da arte na transformação da escola, proporcionando aos alunos uma segurança que os permite ocupar espaços diversos, desde festivais acadêmicos até palcos profissionais”, conta o diretor da escola, Wilson Chagas. “A arte é conhecimento que sensibiliza e gera consciência, influenciando diretamente na autoestima e na melhoria da comunicação e da expressão dos estudantes. Em uma sociedade que muitas vezes desumaniza, a arte tem o poder de tornar esses meninos e essas me – ninas mais espontâneos, afetuosos e conscientes de seus direitos e seus deveres.”

PERTENCIMENTO E REPRESENTATIVIDADE

A experiência bem-sucedida do Centro de Ensino Maria José Aragão joga luz sobre um conceito fundamental para quem lida com a disciplina de Arte ou com projetos artísticos nas escolas públicas: a ideia de cidadania cultural. Trata-se de uma perspectiva que assegura a crianças e a jovens o direito de acesso aos bens culturais e, mais do que isso, garante, também, o direito de produzir cultura e, nesse movimento, gerar novos significados.
Essas duas dimensões ficam igualmente evidentes no projeto Pra Ver Se Me Enxergo, conduzido pela professora Renata Moura dos Santos, da Emei Parque Bologne, no Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. Por meio de atividades variadas, ela buscou modificar a percepção das crianças sobre si mesmas e sobre o lugar onde vivem.
“O poder da arte na escola é permitir que as crianças se enxerguem não apenas como espectadoras que apreciam a cultura, mas como sujeitos que também podem produzir sua própria cultura”, afirma. “Quando elas conversam com artistas do seu território e colocam a ‘mão na massa’, deixam de ser passivas e passam a se projetar, dizendo: ‘Eu também vou ser um artista e fazer o que ele faz’.”
O ponto de partida do projeto, vencedor do prêmio Educador Nota 10, no eixo Direitos Humanos, foi o mapeamento de artistas periféricos que pudessem contribuir para fortalecer o sentimento de pertencimento e o orgulho das crianças em relação à sua origem. Renata conta que chamava a atenção como a arte era algo distante da realidade dos estudantes, que não reconheciam nem valorizavam as expressões artísticas presentes no próprio território. Assim, na visão da professora, o mapeamento de artistas locais é a ferramenta que tira a arte do pedestal da distância e a coloca nas mãos das crianças como um instrumento de autoestima, identidade e transformação social.
A representatividade e a valorização da identidade constituíram um foco de dimensão equivalente na evolução do projeto da Emei Parque Bologne. Para isso, a seleção de artistas privilegiou nomes que fossem referências negras, como Marcelino Melo, Otaviano Júnior e Angélica Dass. Nesse sentido, Renata menciona a frase da escritora Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti 2024: “Onde a gente não se vê, a gente não se pensa, não se projeta”.
Ao mesmo tempo, o mapeamento serviu de base para as crianças colocarem a mão na massa, o que envolveu a utilização em sala de aula de materiais do dia a dia das famílias, a realização de autorretratos e fotografias e a criação de um painel coletivo com a “paleta de cores do Bologne”. As famílias, por sua vez, foram convidadas a apreciar os trabalhos produzidos.
“Para cuidar de um território, o primeiro passo é se apaixonar por ele. Por isso mesmo, foi emocionante ver o projeto romper os muros da escola e tocar as famílias. Quando construímos uma réplica da favela e os pais viram a beleza e a dignidade de suas próprias casas retratadas pelos filhos, muitos choraram. A arte permitiu que a comunidade visse a periferia de uma forma que nunca tinha sido falada antes: como um lugar de alegria, convivência e produção cultural”, diz Renata.

Um lugar no mundo

A obrigatoriedade do ensino de Arte é estabelecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e detalhada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), abrangendo as linguagens de Artes Visuais, Dança, Música e Teatro. Ao mesmo tempo, a abordagem de tais linguagens deve articular seis dimensões, que caracterizam a singularidade da experiência artística: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão.
O objetivo maior é o desenvolvimento de habilidades e competências que possibilitem tanto as práticas investigativas como o próprio fazer artístico, a fim de que crianças e jovens percebam o mundo em sua complexidade, contextualizem saberes e interajam com a arte e a cultura, respeitando a diversidade e o multiculturalismo.
A carga horária desse componente curricular, ainda que conte com parâmetros gerais, depende de cada rede de ensino. No que diz respeito ao Ensino Fundamental, há um mínimo previsto de 800 horas, distribuídas em pelo menos 200 dias letivos. Nos Anos Finais, a disciplina é frequentemente ministrada por professores especialistas.
Para além da regulamentação, observa-se na prática um avanço significativo da presença da arte nas escolas das redes públicas de ensino, com ou sem vinculação ao componente curricular. Mais importante é a compreensão crescente da arte como conhecimento que gera significação e consciência do lugar do indivíduo no mundo.
Nas palavras de Stela Barbieri, artista, autora e educadora, “o ensino da arte deve possibilitar o desenvolvimento da sensibilidade, da percepção e de um pensamento artístico para que o indivíduo possa ler o mundo”. E ela vai além: “Dentro da perspectiva de um ensino das artes visuais de ação expandida, é fundamental observar e questionar o mundo à nossa volta, mantendo vivo o papel de pesquisador, que o estudante deve ter frente ao que se apresenta em seu caminho, e, para isso, é necessário que o educador de ensino da Arte também seja pesquisador e criador, que se indague sobre o assunto estudado antes e junto com seus alunos e com eles vá fazendo investigações e descobertas”.
Em outros termos, ao criar e garantir espaços para a expressão artística, a escola gera oportunidades efetivas para que crianças e jovens experimentem o mundo com mais sensibilidade, autonomia e senso crítico, contribuindo para transformar estudantes em agentes ativos na sociedade e, portanto, cidadãos prontos para a vida na coletividade.

Mobilização e Protagonismo

Os benefícios da integração entre arte e cidadania na escola têm sido percebidos de forma concreta pela Escola Municipal de Ensino Fundamental Álvaro de Castro Mattos, localizada em Vitória, capital do Espírito Santo. Na iniciativa mais recente conduzida pela equipe pedagógica, estudantes dos Anos Iniciais e dos Anos Finais traduziram em desenhos seu conhecimento e sua compreensão sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O projeto Arte Legal: Colorindo Direitos, Construindo Futuro foi realizado com o apoio do Instituto de Cultura e Responsabilidade Social (Icores) e se materializou na exposição dos trabalhos dentro e fora da escola. Mais importante do que o resultado, porém, foi o processo de construção, que valorizou o protagonismo das crianças e dos jovens.
Na avaliação do diretor, Paulo Rodrigues, as características, as atividades e as ferramentas pedagógicas propiciaram que os alunos deixassem de ser meros receptores de informação para se tornarem agentes ativos de sua própria aprendizagem. “A arte e a cultura contribuem para despertar e motivar um interesse maior por parte dos estudantes em participar das atividades escolares de forma prazerosa e lúdica. Quando as atividades partem do interesse deles, a mobilização e o engajamento acontecem naturalmente, tornando muito mais fácil alcançar nossos objetivos de aprendizagem, conhecimento e desenvolvimento”, explica.
Um aspecto essencial desse movimento da Escola Álvaro de Castro Mattos é a interdisciplinaridade, com a arte conectando áreas. No projeto Arte Legal, por exemplo, houve o trabalho conjunto com Língua Portuguesa e a integração com temas de educação ambiental, incluindo a utilização de materiais descartáveis e recicláveis, como latinhas. Além disso, a abordagem transversal garante a continuidade do movimento, pois, como destaca o diretor, Paulo, “vai contaminando positivamente a escola”. Prova disso é que, em março deste ano [2026], os trabalhos dos estudantes chegarão à Galeria de Artes do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Força Transversal e Transformadora

“Quando a arte entra na escola de forma viva, ela reorganiza o espaço, transforma relações e amplia a ideia de aprendizagem. A arte não chega como adorno ou intervalo. Chega como linguagem, como gesto político e como território de escuta.” A afirmação é da educadora e produtora cultural Amanda Alvares Grispino, que já atuou em diversas escolas, das redes pública e privada. Em sua experiência, observou na prática como essa força transformadora vai além das crianças e dos jovens, chega às famílias e, principalmente como arte, ganha um caráter transversal, também aos demais profissionais da escola. “Professores ganham mais confiança para experimentar, gestores passam a valorizar processos, e não apenas resultados, famílias se aproximam da vida escolar de maneira mais afetiva e participativa. A arte cria pontes”, explica.
Amanda costuma trabalhar com ateliês que funcionam dentro das salas de aula da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental — e, desse modo, podem ser utilizados tanto nas aulas de artes como em outras atividades. Trata-se, como explica a educadora, de uma abordagem pedagógica: mesas que se reorganizam, materiais que convidam à investigação, tempos mais dilatados, professores que observam juntos crianças que pesquisam com o corpo inteiro.
Amanda destaca também que, nessa perspectiva, os processos são mais relevantes do que os resultados, integrando o pensar e o fazer, com diversidade de materiais que explorem cores, percepções, sensações e emoções. Diferentemente de uma sala de referência, o ateliê se efetiva no trabalho em pequenos grupos, com olhar e escuta atentos e um trabalho conjunto, desde o planejamento dos contextos pedagógicos a ser investigados por cada pequeno grupo. E mais: com inúmeras possibilidades de convivência e oportunidades de explorar diversas formas do brincar, em diferentes espaços e tempos.
“Acredito profundamente que uma escola atravessada pela arte forma sujeitos mais atentos, mais críticos e mais sensíveis às diferenças. E é dessa matéria-prima — dessa sensibilidade, desse pensamento e dessa ação — que se constrói uma cidadania viva, ética e transformadora”, ressalta a educadora.


Para Saber Mais

  • BARBIERI, Stela. Arte contemporânea no ensino da arte. [S.l.: s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd2. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • CARINE, Bárbara. Como ser um educador antirracista: para familiares e professores. São Paulo: Planeta, 2022. 160 p.
  • ESCOLA MUNICIPAL DE ENSINO FUNDAMENTAL ÁLVARO DE CASTRO MATTOS. Instagram, @emefalvarodecastromattos. Vitória, ES, [s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd3. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • ESPAÇO CULTURAL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO – TJES. Espaço Cultural do Tribunal de Justiça do Espírito Santo – Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo. Vitória, ES, [s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd4. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • FESTIVAL Maranhense de Teatro Estudantil – Femate. Facebook, Página: Cacemfestivaldeteatro. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd5. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • GRUPO DE ARTE MARIA JOSÉ ARAGÃO – GAMAR (@grupogamar_). Instagram. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd6. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • INSTITUTO de Cultura e Responsabilidade Social – Icores. Instituto Icores – Transformando vidas através da arte e cultura. Vitória, ES, [s.d.]. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd7. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • MOVIMENTO PELA BASE. Arte na BNCC. [S.l.], 2018. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd1. Acesso em: 3 fev. 2026.
  • PROJETO Arte Legal: Colorindo Direitos, Construindo Futuro. In: Estudantes exibem desenhos inspirados nos direitos da criança em mostra de arte. Vitória, ES: Prefeitura Municipal de Vitória. Disponível em: https://mod.lk/ed28_cd8. Acesso em: 3 fev. 2026.
Compartilhe!