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Planejar e replanejar: elementos da mesma ação

Para um professor, estar preparado para replanejar é tão importante quanto um novo planejamento. Você está pronto para colocar seu plano inicial de volta nos trilhos?

Por Alexandre Salles Pimenta e Solange Petrosino

Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza. Esta frase, título de um livro do sociólogo suíço Philippe Perrenoud, nos aponta a complexidade da profissão docente, mas, também, nos causa uma certa estranheza, já que a atividade docente é tão pensada, planejada e organizada. De que se trata tal volatilidade que ele nos apresenta?

Próprios da práxis educativa, o estudo e o planejamento resolvem essa equação ao contemplar o entendimento de que a sala de aula tem que abrir espaço para o inusitado e ser capaz de mudar sempre que preciso. Por isso, o replanejar contínuo é parte essencial do próprio planejamento.

Ora, se planejar é “analisar uma dada realidade, refletindo sobre as condições existentes, e prever as formas alternativas de ação para superar as dificuldades ou alcançar os objetivos desejados”, conforme afirma a especialista em Educação, Regina Haydt, em seu livro “Curso de Didática Geral”, podemos deduzir que planejar exige diagnóstico, reflexão e previsão. Tomando esta ideia como ponto de partida, criar estratégias para cumprir cada uma das três etapas será o desafio inicial para um planejamento bem-sucedido.

Parte-se então para o levantamento de questões essenciais sobre contexto, histórico, resultados alcançados e frustrações que ajudarão a contextualizar e definir os objetivos do novo plano. Como prever e planejar em uma sociedade em constante mudança e, especificamente, na atualidade, em que as transformações ocorrem em uma maior velocidade e impactam a rotina escolar de forma direta? Afinal de contas, como as práticas de ensino e aprendizagem devem ser pensadas levando em consideração características sociais, comportamentais, econômicas e políticas, sem perder de vista o projeto político-pedagógico da instituição? E se estamos falando de um contexto mutante, como ser assertivo ao planejar?

Em essência, o planejamento escolar deve tentar prever a melhor estratégia para atingir os objetivos propostos pelo professor, em determinado contexto e para determinados alunos. Nesse sentido, o acesso intenso às novas tecnologias cada vez mais cedo, por exemplo, tem interferido diretamente no cotidiano da sala de aula e gerado novas demandas. Em especial para a equipe pedagógica, que precisa se adequar de maneira rápida e eficiente a essas novas formas de contato com o conhecimento e à grande quantidade e circulação de informações. Tudo isso contribui e deve basear a construção de uma prática pedagógica que permita ao professor promover o desenvolvimento das capacidades e habilidades do pensamento dos alunos.

O ato de planejar é coletivo e requer pesquisa, criatividade, foco e flexibilidade para corrigir as aparas e alcançar os objetivos previstos.

Outro aspecto importante é traçar objetivos convergentes ao projeto-pedagógico da escola, já que muitas são as demandas institucionais que interferem no planejamento e nas decisões dos professores. No entanto, é preciso considerar que a ação de ensinar é uma prática social permeada por múltiplas articulações entre professores, alunos, instituições e comunidade, impregnadas pelos contextos socioculturais a que pertencem. Essa conexão de saberes forma um jogo de múltiplas confluências que ampliam o horizonte de possibilidades num dado tempo e espaço social, que constituem a realidade existencial do professor.

Segundo a especialista Maria Amélia Franco, a prática docente é um trabalho que se organiza em vários tempos e espaços. Tempo e espaço de pensar a aula; tempo e espaço para a pré-organização; tempo e espaço de propô-la e negociar com as circunstâncias; tempo e espaço formal da aula; tempo e espaço de avaliá-la; tempo e espaço de revê-la; tempo e espaço de reestruturá-la; tempo e espaço de pensar de novo…

Há de se considerar no planejamento a mutabilidade do tempo na sociedade atual, e cabe ao professor contemplar os novos elementos que compõem esse cenário. A autora Vani Kenski, em sua obra “Tecnologia e tempo docente”, distingue os tempos docente e discente e determina que a relação harmoniosa é fundamental para um plano exitoso. Para o pesquisador espanhol Joan Rué, o planejamento deve ser visto como criação de oportunidades para a aprendizagem. Ou seja, uma programação que procura prever o que alguém vai aprender no contexto de uma interação, em determinadas condições.

Cabe reafirmar que a sondagem e o diagnóstico, etapas que precedem a elaboração do planejamento, colaboram para o atingimento dos objetivos propostos. Envolver a comunidade é uma estratégia interessante para obtenção de dados mais fidedignos acerca do contexto e das relações existentes, embora não elimine a necessidade de o planejamento ser flexível e com espaço para redirecionamentos. Estas novas direções precisam ter como ponto de partida as avaliações constantes previstas no caminho de aprendizagem traçado.

Replanejamento: uma das finalidades da avaliação

O replanejamento tem sua origem nos resultados obtidos pelos alunos nas avaliações realizadas ao longo do processo de aprendizagem e que ajudam a estabelecer quais rotas devem ser corrigidas ou repensadas.

E o que avaliar? Conhecer bem o contexto escolar, como são as relações interpessoais, ter dados significativos sobre indicadores do desempenho dos alunos e seu percurso escolar, ter clareza das intenções pedagógicas e dos recursos disponíveis para atingi-los são, sem dúvida, um bom começo. Porém, é somente na execução do planejado que temos como avaliar o êxito do previsto e, por isso, essa avaliação deve ser contínua, olhando para cada etapa como possibilidade de redirecionamento, se necessário. Acompanhar os resultados e detectar possíveis problemas abrem oportunidades para corrigi-los e, consequentemente, caminhar para o cumprimento do planejamento.

O trabalho desenvolvido na sala de aula não é uma sucessão de eventos lineares, o que demanda constantemente o exercício da capacidade de construir replanejamentos incorporando diferentes variáveis. Ou, nas palavras de Cipriano Luckesi, sumidade em avaliação educacional no Brasil, “ação planejada, sem acompanhamento, pode chegar a resultados que não desejamos. Toda ação, para atingir os fins desejados, necessita de um rigoroso acompanhamento.” Posto isso, podemos propor que a avaliação abarque, além dos resultados, quais imprevistos influenciaram. Eles foram pontuais ou esquecidos na hora da elaboração do plano de ação? Devem ser contemplados no próximo plano?

Temos que considerar que há objetivos muito próprios da atividade docente e que podem ser avaliados no dia a dia da sala de aula e rapidamente repensados. Já outros, que envolvem o grupo de professores, devem fazer parte das discussões nas reuniões docentes e os de longo prazo, via de regra, previstos no projeto político-pedagógico. Estes últimos demandam um monitoramento e um diálogo que impacte positivamente os futuros planejamentos. O fluxo institucional para essa ação deve ser parte do planejamento macro, prevendo espaços e voz para todos os envolvidos na ação educativa, sob responsabilidade do gestor a implantação e alinhamento de todos os setores.

Em suma, tenha sempre em mente que planejar requer um trabalho frequente de pesquisa, uso da criatividade na elaboração das aulas, definição constante de prioridades e limites, além de, fundamental e essencialmente, diálogo com a realidade dos alunos.

O planejamento e o desafio da personalização da aprendizagem

A personalização do ensino tem se apresentado como forte tendência em educação. O termo remete ao desenvolvimento individual dos estudantes, à aplicação de estratégias pedagógicas que levem em conta os talentos e limites, as facilidades e dificuldades e as competências e interesses de cada um dos alunos.

Esse movimento surge com a introdução das TICs (Tecnologias da Informação e do Conhecimento) na sociedade e no espaço escolar. Os alunos sempre aprenderam de diferentes maneiras e ritmos, mas a inserção de novas tecnologias para aprendizagem desabrocha novas possibilidades, até então reprimidas pela falta de recursos que a viabilizassem

Obviamente, a introdução da tecnologia digital por si só não significa qualquer mudança nos resultados de aprendizagem. Escolher quando e quais recursos utilizar para atingir os objetivos desenhados, a partir de condições e contextos reais, é a carta na manga que pode garantir grandes resultados em um modelo de aprendizagem personalizada.

Essa tendência traz mais um componente a ser considerado no planejamento e que nem sempre é de fácil incorporação. Inicialmente pela necessidade de recursos digitais e de infraestrutura, mas, também, pela criação de estratégias adequadas e exequíveis em determinado contexto escolar, considerando número de alunos, diversidade do grupo, tempo docente e discente e relações existentes.

Para que todos os alunos possam atingir os objetivos elencados no planejamento, por meio de diferentes estratégias, de acordo com o perfil do estudante, o educador deve considerar avaliações constantes e diferenciadas, com flexibilidade suficiente para mudanças individuais no proposto para cada um. Essa condição só é possível em processos com grupos muito pequenos ou mediado pelas tecnologias. Em qualquer uma das situações, o planejamento deve ser estruturado pensando nessa possibilidade e nas possíveis redefinições.

Possíveis intervenções pedagógicas com alguns alunos que, porventura, não apresentem a aprendizagem esperada devem ser previstas no planejamento, não necessariamente levando a um replanejamento, mas sim à previsão de novas estratégias para que todos possam aprender. O considerado no planejamento é o fluxo de aprendizagem do grupo, previsto e depois avaliado. Se a maioria alcançou o estabelecido no programa, há um bom indício da assertividade do plano. Entretanto, cabe ressaltar a atenção devida aos alunos ou classes que ficaram marginais ao processo e contemplar alterações de rotas durante o processo.

As reformas curriculares na escola e o papel do gestor

Primeiramente, há a necessidade de conceituar currículo. Para Branca Jurema Ponce, o currículo não é mais considerado apenas como documento-base no qual se pauta a educação durante o ano letivo, mas é visto como um processo completo, que passa pela sala de aula e pela relação entre todos os envolvidos: professor, aluno, gestor e família, tendo como resultado a aprendizagem.

Nos últimos anos, as mudanças curriculares têm interferido fortemente na organização escolar. As reformas geram, normalmente, expectativas de uma solução rápida dos desafios e problemas da educação, porém, a adaptação às mudanças, para serem sólidas, demanda tempo. Mas precisam ser implantadas, sejam elas vindas das políticas públicas ou as que surgem do cotidiano escolar.

É o gestor escolar, com habilidade de análise, previsão e decisão (seja ele coordenador, diretor ou supervisor), o responsável por incentivar, mediar e efetivar essas mudanças. Após discussão e reflexão, as ideias devem ser colocadas em um documento de fácil acesso, útil ao fazer didático, e que responda aos anseios da comunidade educativa, tornando-se um guia orientador das atividades, concreto e com objetivos traçados.

Nem sempre é fácil esse percurso. “A imposição de um currículo assume a transcendência de um certo conhecimento que tem potencial para conseguir uma sociedade melhor; contudo, propor um currículo é eliminar estruturalmente outras possibilidades. Esse processo nunca é neutro e desprovido de implicações sociais. O conhecimento está sempre inserido num mundo material e social”, destaca a pesquisadora Cecília Mate em sua obra “O coordenador pedagógico e o espaço de mudança”.

Todas as atividades escolares devem estar previstas e organizadas em um planejamento; o repentino pode fazer parte do cotidiano, mas não deve ser regra já que ensinar exige preparo, intencionalidade e organização da ação.

Para elaborar o planejamento, o gestor precisa prever espaços de discussão com os docentes, desde a construção do projeto político-pedagógico da escola até o plano de aula a ser executado. E zelar para que haja coerência entre as diferentes dimensões do planejamento, que estas estejam alinhadas com as necessidades da comunidade educativa e que as ações traçadas sejam efetivas na sala de aula.

Para o pesquisador Celso Vasconcelos, há três dimensões do planejamento escolar que devem ser profundamente consideradas: o planejamento da escola, o planejamento curricular e o plano de ensino. O planejamento da escola é o projeto político-pedagógico ou projeto educativo propriamente dito e, por isso, deve envolver tanto a dimensão pedagógica quanto a comunitária e a administrativa da instituição. “Sendo esse plano integral da instituição, o mesmo é composto por marco referencial, diagnóstico e programação”, destaca.

A dimensão do planejamento curricular diz respeito às atividades que serão de fato realizadas e que terão a participação de todos os elementos da vida escolar. Segundo Vasconcelos, trata-se da “proposta geral das experiências de aprendizagem que serão oferecidas pelas escolas incorporadas nos diversos componentes curriculares, sendo que a proposta curricular pode ter como referência os seguintes elementos: fundamentos da disciplina, área de estudo, desafios pedagógicos, encaminhamento, proposta de conteúdos, processos de avaliação.”

O projeto de ensino-aprendizagem está intimamente ligado ao dia a dia em sala de aula e tem características didáticas e metodológicas de cada docente. É a dimensão mais próxima ao planejamento proposto pelo professor e pode ser subdividido em projeto de curso e plano de aula.

O processo de construção do planejamento é a parte mais importante e é iniciado a partir do confronto do objetivos propostos e os atingidos, dados obtidos por meio de um processo de avaliações preciso e adequado ao contexto. Cabe um apontamento para as avaliações externas que podem contribuir muito com dados relevantes para essa elaboração.

É um trabalho complexo, coletivo, que requer pesquisa, criatividade, prioridade e foco, clareza com o que se pretende alcançar, flexibilidade para replanejar caso seja preciso e que considere as características do grupo de alunos e seu histórico de aprendizagem, as condições de trabalho e recursos disponíveis, mas que é imprescindível para alcançar uma educação de excelência.

André Lázaro
É diretor da Fundação Santillana no Brasil, professor da UERJ e pesquisador da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Atuou por mais de sete anos no Ministério da Educação, nas áreas de gestão pública, educação, direitos

Miguel Thompson
É Doutor em Oceanografia pela USP e atua como Diretor da Fundação Santillana*. É autor de livros didáticos pela Editora Moderna e foi professor do ensino básico por 25 anos.

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