Educação decolonial: construindo uma escola viva e de todos
Como gestores e professores podem transformar o cotidiano escolar ao abrir espaço para as vozes e os saberes que sempre formaram a identidade do nosso povo.
Texto: Ivan Aguirra

Des-América: tratado e ruína, 2025, obra de Hal Wildson, impressão sobre borrachas escolares. A ideia de Abya Yala é uma ferramenta poderosa para todos que vivem do lado de baixo do mapa: trabalhadores, moradores das periferias, indígenas, negros, mestiços e brancos. A história mostra que a riqueza da Europa e o surgimento do sistema moderno dependeram tanto da invasão das terras indígenas quanto da escravidão dos negros. Ou seja, a nossa formação como povo brasileiro e latino-americano nasce dessa mistura de dores e resistências. Somos frutos da mesma exploração colonial.
A ROTINA da gestão e das salas de aula brasileiras é desafiadora, mas também repleta de potência. Diariamente, educadores enfrentam o desafio de engajar estudantes com realidades plurais. Nesse cenário, uma palavra tem ganhado força nos debates pedagógicos: decolonialidade. Longe de ser apenas um conceito teórico complexo, ela representa uma ferramenta prática de transformação. Trata-se do movimento de oxigenar os currículos e as práticas de gestão, abrindo espaço para saberes que foram, histórica e convenientemente, esquecidos.
Decolonizar a educação não significa descartar o conhecimento universal já consolidado. O objetivo é ampliar o olhar. É fazer com que a escola pública reflita, de fato, a riqueza cultural do povo brasileiro, valorizando as matrizes indígenas e africanas que estruturam nossa identidade.
OUTRAS LENTES PARA ENXERGAR O MUNDO
Nas escolas, a tendência histórica foi olhar para o conhecimento a partir de uma perspectiva predominante: a europeia. Quando aplicamos a decolonialidade na gestão escolar e no planejamento pedagógico, passamos a contemplar outras formas de produzir ciência, arte, literatura e tecnologia.
O grande pensador negro Frantz Fanon nos alertava sobre o perigo de aceitarmos receitas prontas que anulam nossa identidade. Para ele, o verdadeiro ato de libertação começa quando deixamos de tentar nos encaixar no espelho do colonizador e passamos a validar nossa própria existência.
Quando o gestor apoia projetos que trazem essas narrativas para o centro da escola, ele fortalece a autoestima dos estudantes. O aluno deixa de ser um mero espectador de uma história distante e passa a se reconhecer como sujeito ativo do saber.
O CHÃO DA ESCOLA E OS SABERES TRADICIONAIS
Para os gestores educacionais, o desafio decolonial se traduz na criação de ambientes acolhedores e democráticos. Isso envolve desde a escolha dos materiais didáticos até a formação continuada dos professores. Significa cumprir com intencionalidade leis fundamentais, como a Lei nº 10.639/03 e a Lei nº 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena.
A consagrada escritora negra Conceição Evaristo criou o conceito de escrevivência para falar sobre a escrita que nasce do cotidiano e das memórias do seu povo. Ela afirma: “A nossa escrevivência não é para ninar os cordéis dos injustos, mas para desalentá-los”. Levar essa potência para a escola significa incentivar que os alunos usem suas próprias vozes, realidades e histórias de vida como matéria-prima para o aprendizado. Uma escola decolonial não silencia as dores e as lutas da comunidade; ela as transforma em conhecimento e emancipação.
A SABEDORIA DA TERRA CONTRA A ILUSÃO DO PROGRESSO
Incluir a decolonialidade na rotina não exige recursos financeiros extras, mas sim sensibilidade e escuta ativa. O xamã e líder indígena Davi Kopenawa traz uma reflexão profunda sobre o impacto de ignorarmos as raízes da nossa terra: “Os brancos dormem muito, mas só sonham com eles mesmos”. Essa frase contundente nos convoca a despertar. Ela nos mostra que a escola não pode continuar olhando apenas para si mesma ou para modelos importados de sucesso.
No contexto escolar, esse chamado nos inspira a valorizar a comunidade, o meio ambiente e os saberes tradicionais. Ouvir as lideranças locais, resgatar a história do bairro e conectar a preservação ambiental com a sabedoria ancestral são formas vivas de decolonialidade.
UMA ESCOLA PARA O FUTURO
Adotar uma postura decolonial é ampliar perspectivas e paradigmas de quem produz conhecimento. É assumir o compromisso de construir uma educação de excelência, humana e conectada com o nosso tempo. Quando abrimos as portas para a pluralidade, reduzimos a evasão escolar e aumentamos o sentimento de pertencimento dos jovens.
A decolonialidade, portanto, é um convite para o recomeço diário. É a certeza de que, ao valorizarmos todas as vozes que formam o Brasil, entregaremos uma escola muito mais viva, justa e preparada para o futuro.
Para Saber Mais
- BARBOSA, Alexandre. O que é decolonialismo? São Paulo: Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2 maio 2024. Disponível em: https://mod.lk/ed29_fm2. Acesso em: 28 jul. 2026.
- EVARISTO, Conceição. Conceição Evaristo: a escrevivência das mulheres negras reconstrói a história brasileira. Entrevista concedida a Morgani Guzzo. São Paulo: Geledés – Instituto da Mulher Negra, 29 jul. 2021. Disponível em: https://mod.lk/ed29_fm1. Acesso em: 27 jul. 2026.
- GELEDÉS INSTITUTO DA MULHER NEGRA. Relatório de Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Disponível em: https://mod.lk/ed29_fm3. Acesso em: 24 ago. 2026.
- KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
