Cultura por meio de jogos
Mancala Awelé, de origem africana, e o Jogo da Onça, de origem indígena, são partes do programa Diadema de Dandara e Piatã, que virou lei em município paulista.
Texto: Rubem Barros

EM TEMPOS de constante hipnose de crianças e jovens pelo mundo digital, jogos de tabuleiro de tradição milenar têm representado não só uma alternativa de diversão longe das telas, mas, também, um poderoso instrumento de interação, desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático e percepção espacial. Ou até mesmo uma ferramenta didático-pedagógica utilizada sem o peso da obrigação, e, de quebra, introduzindo conhecimentos sobre as raízes culturais africanas e indígenas.
É o que têm feito algumas redes de ensino, como as dos municípios de São Paulo e de Diadema, cidades vizinhas, que têm oferecido aos alunos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Fundamental o Jogo da Onça e o Mancala Awelé. No caso de Diadema, o Programa Dandara e Piatã, introduzido em 2021 na rede municipal, virou lei em 2024, ancorando os estudos étnico-raciais que reservam uma aula semanal para trabalhar a História das Culturas Africana, Afro-Brasileira e Indígena, como rezam as Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008. No caso da rede paulis – tana, que trabalha com jogos de tabuleiros desde os anos 1990, os dois jogos passaram a fazer parte das opções formativas para os professores a partir de 2015. Desde o ano passado, o PL (Pro – jeto de Lei) nº 667/2025, para introdução do programa São Paulo de Dandara e Piatã, aguarda aprovação do Legislativo.
Vivian Viegas, professora de Educação Física das duas redes, foi responsável por introduzir os jogos em Diadema, quando, em 2021, passou a compor a equipe de formação da Secretaria de Educação, coordenando a área de Diversidade e Educação Étnico-Racial. Ela é coautora do projeto de lei que tramita em São Paulo.

“Havia uma cobrança muito forte do Movimento Negro, articulado com a Coordenadoria de Igualdade Racial, em relação aos conteúdos de História Africana e Afro-Brasileira. O Diadema de Dandara e Piatã nasceu de uma vontade política que permitiu sua introdução no currículo”, lembra Vivian. “Peguei a ideia do Mancala da rede de São Paulo, pois tinha participado do projeto desde a formação de formadores. Via nele uma potencialidade gigantesca.”
A educadora sugeriu que, diferentemente do modelo de arca de ébano que circulava na rede paulistana, fossem feitos baús de madeira, mais fáceis de replicar em maior escala, aumentando, assim, a possibilidade de chegar a mais escolas da rede. Ela atribui à então secretária de Educação, Ana Lúcia Sanches, “o pulo do gato” para a introdução do programa. Ela se aproveitou de uma questão pendente há muitos anos para propiciar o espaço de formação aos professores especialistas que quisessem se candidatar para participar do projeto: permitiu que fossem utilizadas horas de HTPC (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo), que destina um terço da carga dos docentes para atividades fora do contato direto com os alunos, como planejamento e estudos. Assim, no Ensino Fundamental, os professores especialistas de disciplinas como Arte e Educação Física continuaram com suas aulas normais de segunda a quinta-feira, reservando a sexta- -feira para atuar no Dandara. No caso da Educação Infantil, os próprios professores de sala atuam no projeto.
Os baús do Dandara, além dos tabuleiros e das peças para Mancala e para o Jogo da Onça, contemplam títulos de Literatura e História Indígena e Afro-Brasileira e brinquedos, como bonecas com identidade racial desses povos. Segundo a antiga coordenadora, a implementação não foi fácil. Além da briga para a liberação de mais de R$ 1 milhão para os materiais, houve dificuldades burocráticas e resistência de famílias que puseram em xeque a proposta por acharem que se tratava de proselitismo religioso das crenças de matriz africana.
“Demandou uma energia enorme, mas consegui convencer quase todas as famílias com que conversei, mostrando que não se tratava de religião e era algo previsto no currículo escolar. Se não tivéssemos aprovado a lei, já teriam tirado o programa e colocado qualquer coisa de empreendedorismo”, acredita Vivian.
Dandara e Piatã são figuras simbólicas das culturas afro- -brasileira e indígena. Ex-escravizada, Dandara foi uma das líderes do movimento de resistência do Quilombo de Palmares, no Nordeste brasileiro. O nome indígena Piatã, de origem tupi-guarani, é igualmente um símbolo de resistência. Seu prefixo py quer dizer pé, e o complemento atã significa duro ou firme. Ao longo dos séculos, os indígenas resistiram ao domínio colonial caminhando descalços pelas matas.
CONTINUIDADE
Apesar dos temores da responsável pela introdução do programa, ele continua ativo e hoje é coordenado por uma professora da rede que o ministrava em sala de aula. Gabriela Moura assumiu o posto em 2025, após a troca da gestão, e vê grande relevância na sua continuidade. Atualmente, há 19 professores especialistas que atuam no programa, ainda insuficientes para atender às 22 escolas e a cerca de 11 mil alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental da rede de Diadema. Mas já há previsão de novo processo seletivo para universalizar a oferta do Dandara na etapa.
“Após o ingresso de novos profissionais, há um processo de integração e inserção no plano anual. As escolhas recaem em professores que têm proximidade com as temáticas, e a formação é pautada naquilo que eles vão trabalhar com as crianças de forma concreta, pois uma coisa é ver de fora, outra é atuar”, descreve Moura.
Os jogos são uma parte do programa, que envolve, também, outros aspectos das culturas afro-brasileira e indígena. As temáticas variam ao longo dos bimestres. Neste ano, por exemplo, aproveitando os meses próximos ao Carnaval, foram trabalhadas as manifestações ligadas ao universo do samba, com pesquisas sobre ícones negros desse gênero musical, como Dona Yvone Lara e Elza Soares. Além dos nomes famosos, pessoas da cidade também contribuíram. Foi o caso de Sueli, zeladora de uma escola da rede, que contou sua experiência como porta-bandeira da Estação Primeira de Eldorado, agremiação local hoje extinta. “A ideia é ter, além de nomes conhecidos, pessoas próximas à nossa realidade”, explica Moura.
Em abril, maio e junho, o tema foi a África e suas diversidades, com os alunos identificando os países do continente e sua localização, com a motivação extra de conhecer onde se situam as dez nações africanas que participaram da Copa do Mundo de futebol. No segundo semestre de 2026, entram em cena as questões ligadas à oralidade e os jogos de tabuleiro, além das histórias de mulheres negras e os movimentos de resistência indígena. O ano terminará com a Kizomba, festa que acontece há 20 anos, com a realização de um festival de Mancala. “É um momento de troca e integração da coletividade. O Mancala tem uma coisa especial, pois não é preciso que o outro perca para eu ganhar”, diz a coordenadora.

O PODER DE APRENDIZAGEM DOS JOGOS
A utilização dos jogos pode ser vista como um exercício da etnomatemática, corrente que vê o ensino da disciplina a partir do diálogo com as culturas de diferentes grupos sociais. Além de desenvolver propriedades, como raciocínio lógico e conhecimento de formas geométricas, os jogos permitem o trabalho com valores de culturas ancestrais.
No segundo texto para a Coleção Jogos de Tabuleiro (Secretaria Municipal de São Paulo), escrito por Acácio Almeida, pesquisador de sociedades da África do Oeste e professor da Unifesp, o Mancala faz parte de uma família de jogos de semear, entre os quais a modalidade Awelé, praticada em países como Gana, Mali, Nigéria, Cabo Verde e Senegal, entre outros, em cada um desses lugares com um nome diferente, e permite o compartilhamento de experiências identitárias.
Os jogos Mancala, escreve Almeida, ajudam a desenvolver as memórias auditiva, visual e corporal, a imaginação, a linguagem, a gestualidade, o meio ambiente, a lógica, a afetividade, “além de [fazer] conhecer o patrimônio cultural, o ethos, a ética e a estética, as funções sociais, morais e educativas”.
No caso do Mancala Awelé, o objetivo dos jogadores é mover suas peças (cada jogador começa com 24 delas, distribuídas em seis cavidades de cada lado) e reunir um número maior do que o do oponente em um dos dois armazéns disponíveis.
Já o Jogo da Onça, difundido no Brasil principalmente pelas etnias Bororo (Mato Grosso) e Guarani (São Paulo), também é jogado por duas pessoas. Uma delas fica com a onça e tem o objetivo de capturar cinco dos 14 cachorros que ficam com o segundo jogador. Para capturar um cachorro, a onça deve movimentar-se sobre ele para uma casa vazia, como no jogo de damas. O objetivo do detentor dos cachorros é encurralar a onça, impedindo-a de mover-se.
Na pré-escola, os jogos têm despertado a atenção das crianças. Flávia Albano de Melo, professora da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, trabalha pela manhã no Dandara, para o ciclo dos mais velhos, e à tarde com alunos de 4 e 5 anos. Na turma de pré-escola, Flávia é a professora de classe e utiliza os recursos do projeto durante cerca de 1 hora e 10 minutos por dia.
Começou a trabalhar com o Jogo da Onça no ano passado, quando aprendeu a jogar, com o auxílio de um parceiro da escola. As crianças começaram a se interessar ao ver o tabuleiro e ficaram intrigadas por mais informações sobre a onça. Explicou-lhes como e onde o animal vive e como se alimenta. Entretidos com o tabuleiro e suas formas geométricas com triângulos que formam quadrados e um grande retângulo, foram aprendendo a contar, o que não sabiam fazer até então.
“A cada dia eu trabalhava com uma criança. Queriam saber das duas coisas, da onça e do jogo. Trouxe à escola um artista indígena que tem obras sobre o animal, mobilizei as famílias com livros, como as Fabulosas fábulas de Iauaretê”, conta. A fábula fala de uma onça que se transforma em guerreiro, casa-se e tem um filho que persegue um pássaro para conseguir uma pena mágica, o que lhe permite voar até a senhora que detém o segredo dos poderes dos pajés.
Fábulas e jogo fizeram com que as famílias improvisassem as peças com tampinhas de refrigerante (os cachorros), estimulando-as a contar quantas estavam faltando e a criar uma diferente, para representar a onça. “As crianças estão desenvolvendo a percepção numérica e espacial. Alguns começaram a fazer somas com as peças”, conta Flávia. Para a professora, a liberdade e a autonomia que lhe são dadas na rede municipal têm sido elementos fundamentais para o bom desempenho da experiência.


Para Saber Mais
- JECUPÉ, Kaká Werá. As fabulosas fábulas de Iauaretê. Ilustrações de Sawara. 2. ed. São Paulo: Acalanto, 2021.
- SÃO PAULO (Município). Câmara Municipal. Projeto de Lei nº 677, de 11 de junho de 2025. Institui o Programa de Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena “São Paulo de Dandara e Piatã” nas escolas do Município de São Paulo e dá outras providências. São Paulo: Câmara Municipal de São Paulo, 2025. Disponível em: https://mod.lk/ed29_td1. Acesso em: 30 jul. 2026.
- SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Jogos de Tabuleiro: Jogo da Onça. São Paulo: Secretaria Municipal de Educação, 2020. Disponível em: https://mod.lk/ed29_td3. Acesso em: 30 jul. 2026.
- SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Jogos de Tabuleiro: Mancala Awelé. São Paulo: Secretaria Municipal de Educação, 2020. Disponível em: https://mod.lk/ed29_td4. Acesso em: 30 jul. 2026.
