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Valorizar as infâncias indígenas e afro-brasileiras: desafio necessário e urgente

Um olhar especial da autora Rosiane Rodrigues para a obra Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras que é uma das cinco finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026.
Texto: Rosiane Rodrigues Ilustrações: Isabela Santos

PESQUISADORA, antropóloga, escritora e referência nos estudos sobre educação antirracista e relações étnico-raciais, Rosiane Rodrigues acaba de alcançar um importante reconhecimento nacional: seu livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras está entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. Na reflexão a seguir, a autora compartilha o percurso que deu origem à obra e discute a urgência de valorizar as infâncias afro-brasileiras e indígenas, destacando o papel da educação na construção de práticas pedagógicas comprometidas com a diversidade, a equidade e o enfrentamento do racismo.

O livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras, lançado pela Editora Moderna, é fruto de uma pesquisa exploratória sobre a perda da guarda de crianças de famílias identificadas como Povos e Comunidades Tradicionais, realizada entre 2020 e 2021. O elemento de destaque é que muitas crianças indígenas, ciganas e de terreiros são retiradas de suas famílias, algumas sem passar por ações judiciais, devido ao racismo estruturante da sociedade, que, historicamente, criminaliza essas comunidades.

Produzir conteúdos para a efetivação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que tornaram obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena na Educação Básica, tem sido um desafio constante para pesquisadores e ativistas que pretendem contribuir com a luta antirracista no Brasil. Tenho, ao longo dos últimos anos de atuação na educação, privilegiado uma abordagem que ultrapasse a mera transmissão de conteúdos históricos, buscando oferecer instrumentos para que professores, estudantes e comunidades escolares compreendam a diversidade cultural brasileira como elemento estruturante da formação nacional.

Ao dialogar com temas como ancestralidade, religiosidades de matriz africana, patrimônio cultural, identidade, memória coletiva e saberes tradicionais, o livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras (Editora Moderna, 2025) visa contribuir para romper com visões estereotipadas que, durante décadas, marcaram os materiais didáticos e o próprio ambiente escolar. Em vez de reproduzir narrativas centradas exclusivamente na escravidão ou na marginalização da população negra, a obra propõe reflexões que valorizam o protagonismo histórico, intelectual, artístico, político e cultural dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas.

Essa perspectiva possui especial relevância para a implementação das referidas leis, pois um dos maiores desafios enfrentados pelas escolas brasileiras não consiste apenas na existência da legislação, mas na disponibilidade de materiais pedagógicos capazes de orientar sua aplicação cotidiana. Nesse sentido, a obra pode servir como referência para práticas educativas comprometidas com a valorização da pluralidade cultural e com a promoção da igualdade racial.

Outro aspecto importante de sua contribuição reside na aproximação entre o conhecimento acadêmico e a realidade das comunidades tradicionais. Ao reconhecer os terreiros, seus líderes, os mestres da cultura popular, as lideranças comunitárias e os espaços de preservação da memória afro-brasileira como produtores legítimos de conhecimento, amplia-se o conceito de educação, aproximando a escola dos saberes presentes na sociedade.

O livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras é estruturado em diálogo direto com os princípios da educação intercultural, estimulando metodologias que valorizam o respeito às diferenças, o diálogo entre culturas e a construção de uma cidadania baseada na dignidade e no respeito. Em vez de tratar a diversidade como tema periférico ou comemorativo, propõe que ela seja incorporada ao currículo escolar de forma permanente, transversal e crítica.

Sob a perspectiva da luta antirracista, o texto também auxilia professores na desconstrução de preconceitos historicamente naturalizados. O estudo da história da África, das contribuições dos povos africanos para a formação econômica, social, política, religiosa, científica e cultural do Brasil, bem como o reconhecimento da riqueza das culturas indígenas, favorece a superação de práticas discriminatórias e fortalece uma educação voltada para os direitos humanos.

Além disso, a valorização das identidades negras e indígenas produz efeitos positivos sobre a autoestima dos estudantes pertencentes a esses grupos, contribuindo para sua permanência na escola, para o fortalecimento de seu pertencimento cultural e para a construção de ambientes educacionais mais inclusivos. Ao mesmo tempo, proporciona aos demais estudantes uma compreensão mais ampla da sociedade brasileira, favorecendo relações baseadas no respeito mútuo e na convivência democrática.

O livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras, juntamente com a obra “Nós” do Brasil: educação para as relações étnico-raciais (Moderna, 2012) e o livro Para pensar diferente: cidadania, igualdade e direitos (Moderna, 2016) não se restringem à apresentação de conteúdos pedagógicos. Eles integram uma proposta educativa voltada à construção de práticas escolares antirracistas e à transformação das relações étnico-raciais no espaço escolar. Ao estimular o reconhecimento da diversidade, da ancestralidade e dos diferentes patrimônios culturais brasileiros, esses livros fortalecem práticas educativas capazes de enfrentar o racismo estrutural e promover uma educação mais democrática, plural e socialmente comprometida.


Rosiane Rodrigues
é pesquisadora do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (NUFEP/UFF), doutora e mestra em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Laboratório Milonga (UFBA). É autora dos livros “Nós” do Brasil, Quem foi que falou em igualdade? e Para pensar diferente, voltados à educação antirracista, aos direitos humanos e à valorização da diversidade cultural. Ialorixá de Yemanjá, Rosiane Rodrigues está entre as cinco finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico com o livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras, publicado pela Editora Moderna.


Para Saber Mais

  • RODRIGUES, Rosiane. “Nós” do Brasil: estudos das relações étnico-raciais. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2013.
  • RODRIGUES, Rosiane. Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afrobrasileiras. Ilustrações: Isabela Santos. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2025.
  • RODRIGUES, Rosiane. Para pensar diferente: cidadania, igualdade e direitos. São Paulo: Moderna, 2016.
  • RODRIGUES, Rosiane. Quem foi que falou em igualdade? Rio de Janeiro: Editora Telha, 2026.
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